Entre o gesto e o recuo

Sexta-feira, 17 de Dezembro de 1976

De manhã levantei-me com o corpo ainda preso ao cansaço dos dias iguais. Saí para a paragem e esperei por ela. A Odília apareceu com o passo de sempre, nem apressado, nem lento, como se já soubesse que eu estaria ali.

Estás aqui há muito tempo? — perguntou.

O suficiente.

Ela sorriu de leve, aquele sorriso curto que nunca sei bem se é para mim ou para o mundo, e começámos a descer em direcção ao liceu. O caminho fez-se com palavras simples, dessas que não pesam, mas também não ficam. Ainda assim, havia qualquer coisa no modo como caminhávamos lado a lado que me bastava.

As aulas passaram sem história. Saí, almocei sem pressa e voltei ao ponto de sempre, esperar por ela. Há uma estranha fidelidade neste gesto de esperar, como se, naquele tempo suspenso, eu fosse mais dela do que em qualquer outro momento.

Quando regressámos, o caminho trouxe-nos de novo um ao outro. Em S. Pedro, a conversa ganhou vida, como às vezes acontece sem aviso. Ela falava mais, eu acompanhava-lhe o ritmo, e por instantes tudo parecia solto, leve.

Hoje estás diferente — disse-lhe.

Diferente como?

Mais… aqui.

Ela olhou para mim, sem responder logo. Havia ali qualquer coisa a querer nascer, talvez uma resposta, talvez outra coisa qualquer. Mas não chegou a sair.

De repente, o corpo dela desviou-se do meu, quase sem transição. Parou um pouco à frente, acenou a alguém que eu não consegui ver e afastou-se mais uns passos.

Já te apanho — disse, por cima do ombro.

Fiquei onde estava, com as mãos nos bolsos e uma espécie de vazio a instalar-se sem pedir licença. Tentei perceber quem seria, a mãe, alguém da família, uma vizinha, mas a verdade é que não vi ninguém. Só vi o efeito, aquela distância súbita, como se entre nós tivesse passado uma linha invisível.

Quando voltou, já não era bem a mesma coisa. Retomámos o caminho, mas a conversa não encontrou o mesmo lugar. Ficou mais curta, mais cautelosa, como se tivesse aprendido a medir-se.

Cheguei a casa, peguei na mala e fui para o centro. No gabinete do grupo, o tempo passou sem deixar marca. Às seis, saí.

De regresso, lanchei à pressa e segui para a Academia. O corpo cumpriu o treino, mas a cabeça andava noutro lado, presa naquele momento em S. Pedro, a tentar decifrar o que não se deixa ver.

Quando saí, a chuva já caía com vontade. O meu pai esperava-me com um guarda-chuva.

Anda daí, ainda te molhas — disse, abrindo-o.

Caminhámos lado a lado, em silêncio. Debaixo daquele abrigo simples, senti um contraste estranho, a proximidade tranquila com ele e a distância inquieta que trazia de antes.

Em casa, jantei e vi televisão, mas sem realmente ver. O dia ficou a pairar em mim, como uma pergunta mal formulada.

Percebo agora que há gestos pequenos que dizem mais do que palavras inteiras. Hoje aprendi que a proximidade não é garantida, pode desfazer-se num instante, sem explicação, deixando apenas o eco do que podia ter sido. E talvez seja isso que mais custa, não o que aconteceu, mas o que ficou por acontecer.


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