O primeiro dia sem a ver
Sábado, 18 de Dezembro de 1976
Acordei sem pressa, como se o dia não tivesse urgência em começar. Cumpri o ritual do costume e fui para o liceu, mas já com uma sensação estranha, como se algo tivesse ficado para trás sem eu saber bem o quê.
Houve uma aula que não tive. Fui até à Biblioteca Municipal. Entrei mais por hábito do que por vontade. Folheei livros, li frases soltas, mas nada me prendeu. Era como se as palavras não me reconhecessem hoje. Voltei depois ao liceu para a última aula, apenas para cumprir presença. No fim, saí com a leveza de quem entra em férias, mas sem a alegria que devia vir com isso. A Dila já estava de férias desde ontem. Senti isso mais do que pensei.
Almocei em casa e, sem ficar muito tempo, fui para o centro. A tarde passou cheia, ocupada de coisas e de gente. Fiz, falei, andei de um lado para o outro. Não parei. Talvez para não dar espaço ao silêncio que se instala quando ela não está.
Mesmo rodeado de movimento, faltava-me qualquer coisa simples. Aquele momento em que a encontro, o olhar que troca comigo sem pedir licença. Hoje não houve nada disso. E o dia, por mais preenchido que estivesse, ficou com uma espécie de falha invisível.
Já de noite voltei para casa, jantei, e o meu pai convidou-me para irmos ao Porto ver um filme de karaté. Fui com ele. No escuro da sala, os golpes, os gritos, a disciplina dos movimentos. Tudo certo, tudo decidido. Ao contrário de mim.
Agora que o dia terminou, percebo o que me inquieta. As férias começaram, mas ela não está nelas comigo. Estão desencontradas. E eu, que pensei que o tempo livre me daria mais dela, vejo que pode fazer o contrário.
Talvez o que mais me custa não seja a ausência. É não saber como a preencher.
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