Um dia que não aconteceu
Domingo, 19 de Dezembro de 1976
Levantei-me já tarde, como quem chega atrasado a um dia que não o esperava. Enfiei-me na banheira, deixei a água correr mais do que o necessário, talvez na esperança de acordar por dentro. Tomei o pequeno-almoço sem pressa, mas também sem gosto. Havia qualquer coisa em falta e eu sabia bem o que era.
Saí pouco depois do meio-dia e fui até ao centro. Andei pelas ruas como quem procura um sinal que não vem. Olhava as caras, os passos, os gestos, mas nenhum deles era o dela. Voltei para casa perto da uma, com a sensação de ter ido apenas confirmar uma ausência.
Almocei em silêncio e deixei-me cair diante da televisão. As imagens passavam, mas não me ficavam. Era só uma maneira de ocupar o tempo sem o viver. Quando o filme acabou, levantei-me quase por reflexo e voltei ao centro. Como se insistir pudesse mudar alguma coisa.
Passei pelo gabinete do grupo. Fiquei por lá algum tempo, sem grande vontade de falar, sem grande coisa para dizer. No meio de vozes e movimentos, senti-me à margem, como se estivesse sempre um passo ao lado do que realmente importa.
Ao fim da tarde, ainda tentei prolongar a espera sem o admitir. Fiquei mais um pouco, vagueei devagar, olhei para os mesmos sítios de sempre. Mas a verdade é simples. Ela não apareceu.
Regressei a casa já de noite. Jantei e voltei a sentar-me diante da televisão. O dia fechou-se como começou. Sem deixar marca.
Hoje percebi uma coisa que não queria aceitar. Há dias em que a ausência de alguém pesa mais do que qualquer presença. E nestes dias, por mais que se ande, não se sai do mesmo lugar. Talvez o mais difícil não seja não a ver. É aprender a fazer um dia inteiro caber nesse vazio.
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