O nevoeiro que não diz tudo

Segunda-feira, 20 de Dezembro de 1976

A manhã nasceu fria, quase sem forma. Levantei-me por hábito, como quem cumpre um acordo silencioso com o dia. O pequeno-almoço soube a pouco, talvez por dentro já me faltar qualquer coisa que não estava ali na mesa.

Saí para o nevoeiro. Havia nele uma espécie de silêncio pesado, como se o mundo tivesse decidido falar mais baixo. Fui para o centro. Sentei-me à máquina e escrevi, mas as palavras não tinham corpo. Eram tentativas, não eram certezas. Pareciam-me sempre a meio caminho de qualquer coisa que não chegava.

Tentei ligar para o posto médico. Uma vez, duas, várias. Sempre ocupado. Aquele sinal repetido começou a parecer-me mais do que um acaso. Como se o dia estivesse fechado para mim em pequenas portas que não abriam.

Passei pelo gabinete do grupo. Fiquei um pouco. Não havia ali nada que me prendesse verdadeiramente. Vim embora.

Depois do almoço voltei. Aos poucos foram aparecendo os outros. O espaço encheu-se de vozes e risos soltos. Estivemos a ver revistas. Passei páginas sem realmente as ver. Havia imagens, havia histórias, mas nenhuma me tocava.

Ao fim da tarde a brincadeira tomou conta do ambiente. Rimos. Eu também ri. Às vezes é mais fácil rir do que explicar o que nos falta.

Quando saímos, acompanhei um colega até à paragem da camioneta. Ficámos ali um pouco, à espera. O tempo arrastava-se devagar, como se também ele estivesse cansado. Despedi-me e segui o meu caminho.

Cheguei a casa, jantei sem pressa. Depois fui a casa do Mazola levar uma gravura. Entreguei-lha e não fiquei. Havia dias em que as conversas fluem. Este não era um deles.

Voltei para casa e liguei a televisão. As imagens passavam, umas atrás das outras, mas eu estava longe delas.

E dela.

Hoje não houve Dila. E isso sentiu-se em tudo. No nevoeiro da manhã, nas palavras que não saíram, nas páginas que não ficaram. É estranho como a ausência de uma pessoa pode ocupar tanto espaço.

Percebo agora que há dias que não são feitos do que acontece, mas do que falta. E nesses dias, por mais que se faça, há sempre qualquer coisa que fica por viver.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »