O dia que não disse nada

Terça-feira, 21 de Dezembro de 1976

Acordei sem pressa, como se o corpo já soubesse que o dia não ia trazer grandes novidades. Vesti-me, saí, e deixei que o caminho até ao centro se fizesse quase sozinho. Há dias assim. Vamos, mas não chegamos a lado nenhum por dentro.

Passei a manhã entre o som seco da máquina de escrever e o silêncio do gabinete do grupo. As teclas batiam com uma certeza que eu não tinha. Palavra atrás de palavra, linha atrás de linha, mas sem alma. Era trabalho feito, não vivido.

Voltei a casa para almoçar. Comi sem pensar muito, como quem cumpre uma tarefa. Logo depois regressei ao centro. Alguns colegas apareceram, falaram, riram-se, ocuparam o espaço. Eu estive lá, mas a verdade é que fiquei sempre um pouco de fora. Como se faltasse alguém para que aquilo fizesse sentido.

E faltava.

Saí às seis. O frio da rua apanhou-me desprevenido, ou talvez não fosse o frio. Talvez fosse só aquele vazio discreto que se instala quando o dia não nos toca.

Em casa, um lanche rápido e depois a Academia. Cumprimentei os colegas, desejei boas férias, ouvi o mesmo de volta. Houve sorrisos, alguns mais sinceros do que outros. Dei por mim a pensar que todos pareciam saber para onde iam a seguir. Eu não.

A Dila não apareceu. Nem por acaso, nem por distração. E isso fez mais barulho do que qualquer conversa que tive durante o dia.

Voltei para casa. Jantei. A televisão fez-me companhia, ou fingiu. As imagens passavam e eu deixava-as ir, sem as guardar.

Hoje foi um dia cheio de coisas e vazio de tudo o que importa. Percebo agora que não é a falta de acontecimentos que pesa. É a falta de sentido. E o meu, começo a suspeitar, anda cada vez mais ligado a ela.

Se a Dila não está, os dias passam. Mas não ficam.


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