Um dia que passou sem pedir licença

Quarta-feira, 22 de Dezembro de 1976

Acordei mais tarde do que o costume, como se o corpo tivesse decidido por mim que aquele dia não merecia pressa. Tomei o pequeno-almoço sem grande atenção ao que fazia. Saí para o centro com essa mesma distração colada aos gestos.

Entrei na biblioteca e fiquei a folhear um livro. Não procurava palavra nenhuma em especial. Talvez procurasse outra coisa que não se escreve. Fui passando páginas como quem tenta encontrar um sentido escondido entre definições. Não encontrei. À uma hora, fechei o livro e saí.

Voltei para casa, almocei em silêncio e troquei de roupa. Havia tarefas à espera e cumpri-as sem resistência. Fui buscar o passe, depois acompanhei a minha mãe até ao Porto para fazer compras. As ruas estavam cheias, com aquele movimento apressado de quem se prepara para o Natal. Olhava as pessoas e pensava que cada uma carregava uma história, mas nenhuma me interessava verdadeiramente. Só uma ausência me ocupava.

Quando já tínhamos tudo, passámos em casa da minha avó. No regresso, os transportes complicaram-se. Esperas longas, desencontros, atrasos. Um caminho simples tornou-se um pequeno labirinto.

Cheguei a casa já sem vontade de nada. Vesti o pijama cedo, jantei e sentei-me diante da televisão. As imagens passavam, mas eu não estava lá.

Faltava-me a Dila. Não como se falta a um hábito, mas como se falta a um ponto de apoio. Dei por mim a imaginar o que teria sido o dia se a tivesse visto, nem que fosse por um instante.

Talvez lhe dissesse, quase sem pensar:
Hoje não aconteceu nada.
E ela, com aquele meio sorriso que me desarma, responderia:
Então inventavas qualquer coisa.

Fiquei com essa frase a ecoar. Talvez seja isso que me inquieta. Há dias que nos acontecem e há dias que somos nós que temos de construir. Hoje deixei que ele passasse por mim.

E ao deitar-me, com o cansaço a pesar mais na cabeça do que no corpo, percebi uma coisa simples. Quando ela não está, o mundo encolhe um pouco. Não se apaga. Continua a existir. Mas perde profundidade, como um cenário sem sombra.


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