À janela, como quem espera o impossível

Quinta-feira, 23 de Dezembro de 1976

Levantei-me sem pressa, como se o dia tivesse de ser conquistado aos poucos. O pequeno-almoço soube ao de sempre, mas havia qualquer coisa por trás, uma expectativa quieta, teimosa. Fui para o centro com essa sensação mal definida, como quem vai ao encontro de algo que talvez nem exista.

A notícia chegou-me pela senhora das chaves, o pai da Odília iria mandar alguém buscar uns plásticos. Não era muito, mas bastava. Qualquer pretexto servia quando o fundo da questão era outro.

Instalei-me junto à janela, no meu posto improvisado de vigia. Dali via-se o mundo passar, pessoas, passos apressados, rostos sem história, e eu, parado, à espera que um desses rostos fosse o dela.

Para enganar o tempo, comecei a escrever. Uma carta. Não sei bem quando deixou de ser apenas um exercício e passou a ser um desabafo. As palavras saíam-me com cuidado, como quem pisa terreno frágil. Quando emperrava, recorria ao dicionário, como se ele pudesse traduzir o que me faltava coragem de dizer directamente.

Isto está bonito — murmurei para mim, a meio da escrita, quase surpreendido.

Mas bonito para quem? Para ela? Ou apenas para mim, que precisava de acreditar que sabia dizer o que sentia?

O tempo foi passando. A rua mudou de ritmo. A luz também. E ela… não apareceu.

Esperei mais um pouco, só para ter a certeza de que não era impaciência. Mas não era. Era mesmo ausência.

Fui almoçar a casa com uma espécie de silêncio por dentro. Voltei depois ao centro, como quem insiste numa ideia que já sabe perdida. O meu lugar à janela esperava-me, fiel como um hábito. Mas o desfecho foi o mesmo, nada.

A certa altura, deixei de olhar. Peguei nos trabalhos para a exposição e tentei concentrar-me. As mãos ocupadas ajudam a calar a cabeça, mas não fazem milagres. No fundo, continuava à espera, só que por dentro.

Acabei por desistir e voltei para casa.

À noite, chovia, fui esperar o meu pai. Fiquei ali, parado, a vê-la cair, como se tivesse tempo para tudo menos para aquilo que realmente queria. Quando o vi chegar, encolhido, apressei-me a ir ao seu encontro. Há gestos que não se pensam.

Em casa, a televisão não oferecia nada que prendesse. Ficámos ali, eu e a minha irmã, a inventar um pequeno mundo com o flautim. Tocámos, cantámos, rimo-nos sem grande razão. Foi talvez o momento mais leve do dia, estranho como a leveza aparece quando já não esperamos nada.

Mais tarde, a televisão acabou por preencher o resto da noite, mas sem deixar marca.

Hoje foi um dia de espera. Não daquelas grandes, dramáticas, foi uma espera discreta, quase teimosa. Fiquei à janela por fora e por dentro. E percebi uma coisa simples, mas difícil de aceitar, há dias em que o mundo não responde.

Mas mesmo assim, amanhã… sei que volto a tentar. Porque quando se espera alguém como eu espero a Dila, desistir não chega a ser uma opção, é apenas uma pausa que não convence ninguém.


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