Véspera de Natal

Sexta-feira, 24 de Dezembro de 1976

O dia nasceu com uma pressa estranha, como se também ele soubesse que hoje ninguém tem tempo para o tempo.

Levantei-me cedo e segui com o meu pai para o centro. O pequeno-almoço ficou-me na memória como um gesto automático, sem gosto, apenas função. Havia uma inquietação que não se explicava bem, ou talvez se explicasse demasiado bem, e por isso mesmo eu a evitasse.

Quando fui buscar as chaves, a senhora que as guarda disse-me, quase em tom casual, que a Odília tinha acabado de sair dali.

Não sei o que foi mais forte, a frase ou o intervalo depois dela.

Fiquei incomodado, como se tivesse chegado tarde a qualquer coisa que não sabia que estava marcada para mim. Continuei o caminho sem dizer nada, mas por dentro havia um ruído leve, persistente.

Durante toda a manhã limitei-me a tocar pífaro. O som saía e voltava a mim, como se não pertencesse verdadeiramente ao mundo. Havia momentos em que parecia que eu não estava a tocar música, mas a empurrar o tempo para o lado.

À uma hora vim embora.

Em casa, o almoço passou sem grandes palavras. Depois fiquei à espera que a chuva cedesse. Três horas de espera têm um peso próprio, não são vazias, são cheias de pensamentos que não cedem espaço.

Quando finalmente saí, fui para o centro outra vez. Houve uma festa para as crianças. Barulho, movimento, vozes a sobrepor-se umas às outras como se ninguém quisesse ficar atrás da vida.

Mas eu estava noutro lugar dentro do mesmo lugar.

Passei o tempo a ajudar o Mazola. Pequenas tarefas, coisas simples, quase mecânicas. Às cinco e meia tudo terminou e vim embora.

No regresso, a vila parecia mais leve, como se tivesse tirado um casaco demasiado pesado.

Em casa, ainda pratiquei um pouco artes marciais com o meu pai. Uns bastões, uma matraca. Pequenos sons de madeira contra o ar, quase infantis, quase esquecidos de que o mundo lá fora continua a girar.

Mas o cansaço chegou como chegam certas verdades, sem pedir permissão.

Deitei-me.

E não foi só o corpo.

A Odília ficou-me presa como um pensamento que não escolhe lugar certo para ficar. Não sei bem o que me incomoda mais se a sua ausência ou o facto de eu reparar tanto nela quando ela não está.

A Dila, pelo contrário, aparece-me de outra forma. Não hoje, não aqui de maneira concreta, mas como um fio mais calmo por dentro das coisas. Há dias em que tudo o resto parece ruído e só esse fio permanece inteiro. Não o puxo, não o forço. Está lá.

Hoje percebi que há pessoas que fazem barulho mesmo quando não estão presentes. E outras que, sem dizer nada, mudam a forma como o silêncio nos assenta por dentro. Talvez crescer seja isto, aprender a distinguir o ruído do que fica.


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