Dia de Natal
Sábado, 25 de Dezembro de 1976
O dia nasceu sem pressa, como se até o tempo respeitasse a solenidade da data. Levantei-me com o corpo ainda preso ao calor da cama e fui cumprindo os gestos habituais, quase automáticos, o pequeno-almoço, a água fria na cabeça, o espelho sem surpresas. Depois ajudei o meu pai a limpar a motorizada. Havia qualquer coisa de repetido nesse gesto, como se o Natal, em vez de novidade, fosse uma lembrança a regressar todos os anos pelo mesmo caminho.
Reparei nisto com um pensamento breve, no ano passado tinha sido igual. E isso, longe de me confortar, deu-me uma estranha sensação de círculo fechado. O mundo avança, dizem. Mas há dias em que apenas se repete.
Ao meio-dia, a mesa apareceu sem cerimónias excessivas. Comi como se o corpo estivesse presente mas a cabeça distante. Havia risos, conversa solta, o ruído habitual de família em dia de festa. Eu respondia quando era preciso, mas por dentro permanecia esse espaço quieto onde as coisas realmente aconteciam.
A tarde foi entregue à televisão e à preguiça permitida. As minhas irmãs brincavam com o que receberam, e eu fui ficando entre o sofá e a atenção dispersa. Peguei na minha prenda várias vezes. Um avião para prender ao teto ao tecto, feito para voar em círculos lentos. Era um objecto estranho para a minha idade, sim, mas bonito de uma forma que não se explica facilmente. Há coisas que não pertencem ao que se espera de nós, e por isso ficam mais tempo connosco.
Enquanto o observava suspenso, dei por mim a pensar na exposição do grupo, em ideias, em futuros possíveis. E depois, sem aviso, o pensamento desviou-se.
Dila.
Não de forma clara, nem organizada. Apenas a presença dela como se o objecto no tecto tivesse aberto uma espécie de passagem invisível. O movimento circular do avião lembrava-me qualquer coisa que não sabia o que era. Talvez a maneira como certas pessoas entram na nossa vida e depois ficam a girar dentro de nós, sem pouso definitivo.
Não escrevo mais do segundo pensamento. Não porque não exista palavra, mas porque há palavras que pesam mais do que parecem. E fiz uma promessa. Ou talvez tenha feito mais do que uma promessa, talvez tenha decidido guardar.
Ainda assim, houve um instante breve em que me perguntei o que ela diria ao ver aquilo. Não a prenda. Mas o pensamento.
E isso bastou para eu fechar esse caminho.
À noite, o jantar quase não existiu. Comi pouco, mais por hábito do que por fome. Depois voltei à televisão até perto da meia-noite, como se o dia precisasse apenas de ser gasto até ao fim.
Antes de me deitar, fiquei alguns minutos em silêncio. A casa já dormia. O Natal, lá fora, parecia distante, como uma luz que não chega verdadeiramente cá dentro.
E então ficou esta ideia, há dias que não acontecem para mudar nada. Acontecem apenas para confirmar o que já sabemos, mas evitamos dizer em voz alta. Que há coisas que se repetem. E outras que, mesmo quando não acontecem, continuam a mover-se dentro de nós como aquele avião suspenso, sem nunca aterrar.
Hoje foi dia de Natal, mas senti-o mais como um espelho do que como uma celebração. Tudo esteve no seu lugar, e mesmo assim houve qualquer coisa fora de lugar em mim. Talvez seja isso crescer sem querer admitir. Ou talvez seja apenas aprender a guardar certos pensamentos no silêncio, como quem fecha uma gaveta que ainda não está pronta para ser aberta.
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