Não me sai da cabeça
Domingo, 26 de Dezembro de 1976
Acordei sem pressa, como se o dia ainda estivesse a decidir se valia a pena existir. O pequeno-almoço soube a rotina quente, pão, café, e as palavras soltas com o Manel, sem grande profundidade, mas com aquela companhia que enche o silêncio de casa.
Saí depois para o centro. Levei comigo a papelada que já começava a ganhar o hábito de ser demasiado. Arrumei-a com uma espécie de paciência cansada, como quem organiza não só folhas mas também pensamentos que não querem assentar. No gabinete do grupo, tudo seguia o seu curso habitual, essa máquina discreta de tarefas e decisões pequenas que, somadas, fingem importância.
Não vi a Dila de manhã. Ou melhor, não a vi de facto, mas ela esteve lá, como quase sempre. Há presenças que não dependem do corpo. Às vezes basta uma cadeira vazia para alterar o ritmo de uma sala.
Voltei a casa ao meio-dia. Almocei em silêncio, com a televisão ligada mais por companhia do que por interesse. Um filme passou sem me prender verdadeiramente, mas deixou-me naquele estado morno em que o tempo parece não pesar.
Quando acabou, levantei-me e fui de novo para o centro.
À tarde servi de cicerone a umas pessoas que vieram visitar o espaço. Falei-lhes do grupo, dos projectos, das intenções. Falei como se tudo estivesse mais claro do que realmente estava. Nesses momentos, um homem aprende a disfarçar as dúvidas com palavras seguras.
Já ao fim da tarde, quando o frio começava a entrar nos ossos, voltei para casa.
Jantei com a família e depois saí com o meu pai para o café. Ele estava mais calado do que o habitual, talvez cansado do dia, talvez só preso aos próprios pensamentos.
No café, o ambiente era o de sempre, vozes cruzadas, o fumo leve, o som das chávenas. Foi lá que uma conversa política começou quase sem querer. Uma opinião lançada, outra resposta mais dura. E eu, no meio, sem procurar conflito, mas também sem recuar.
— Isso não vai mudar nada, António — disse-me um homem da mesa ao lado, com um tom que misturava provocação e convicção.
— Talvez não mude tudo — respondi — mas também não muda nada o silêncio.
O meu pai olhou-me de lado, como quem pede contenção sem palavras. E eu percebi o aviso. Não vale a pena incendiar o que já está quente demais.
A discussão ficou por ali, sem feridas abertas. O tempo, às vezes, também serve para isso, fechar portas antes de se baterem.
Saímos depressa. Tínhamos o cinema à espera.
O filme desenrolou-se com a leveza certa para não exigir demasiado de nós. Entre imagens e sombras, deixei-me ficar, mais atento ao conforto do momento do que à história em si. O meu pai, ao meu lado, respirava com calma. Isso bastava.
No fim, viemos embora em silêncio. O tipo de silêncio que não pesa, apenas acompanha.
Agora, já em casa, a noite parece mais longa do que o dia.
E a Dila volta a aparecer-me, sem aviso, como uma ideia que não precisa de ser chamada. Não sei se esteve mais perto hoje ou se foi só a minha cabeça a insistir nela. Há dias em que a ausência também se move.
Penso nisso antes de dormir, há pessoas que entram nos dias como quem entra numa sala sem fazer ruído, mas mudam tudo à mesma. E há dias inteiros que só fazem sentido por causa disso.
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