O som das coisas simples
Segunda-feira, 27 de Dezembro de 1976
Acordei com a casa ainda meio adormecida, como se até as paredes estivessem a hesitar entre o sono e o dia. Tomei o pequeno-almoço sem pressa, desse modo automático em que o corpo já sabe o caminho mas a cabeça ainda anda longe.
Fui ao barbeiro. Estava fechado. Fiquei um instante parado à porta, como quem espera uma explicação do mundo, mas o mundo não explica nada a ninguém. Dei meia volta e segui. Há dias assim, em que até os planos mais simples se desfazem sem informarem.
Fui para o centro já com um novo instrumento de música. Um objecto leve nas mãos, mas com um peso estranho dentro de mim, a ideia de que aquilo podia dar forma a algo maior, um pequeno coro interno, uma tentativa de ordem no meio do barulho habitual.
À tarde, depois de almoço, voltei ao centro e segui com um colega para Fânzeres. Tínhamos um assunto do grupo para resolver. Mas o assunto ficou no mesmo sítio onde o encontrámos. Há coisas que parecem feitas para não sair do lugar. Viemos embora com essa espécie de resignação silenciosa que não precisa de palavras.
No regresso, passámos por minha casa. Foi uma paragem breve, quase sem intenção. Depois seguimos novamente para o centro.
Lá ajudei a senhora que guarda as chaves a arrumar cadeiras. Pequenas tarefas que não mudam o mundo, mas que o mantêm de pé. Mais tarde ajudei um colega a desmontar um cenário de fantoches. Havia qualquer coisa de estranho em desfazer aquelas figuras depois de lhes ter sido dada vida, mesmo que por pouco tempo.
Depois, com outro colega, metemo-nos a “lidar” com a electricidade a pilhas. Uma tentativa meio séria, meio brincada, de fazer funcionar coisas que nem sempre querem obedecer. Ri-me por dentro dessa teimosia humana de querer que tudo acenda.
Quando saí, já era noite. O frio tinha aquele silêncio próprio que faz os passos parecerem mais altos do que são.
Cheguei a casa. Jantei. Mais tarde, estive com as minhas irmãs num pequeno convívio simples, dessas horas em que ninguém procura grande coisa além de estar. Vimos televisão. As imagens passavam, mas eu sentia-me um pouco fora delas, como se estivesse a olhar através de um vidro ligeiramente embaciado.
E a Dila… não apareceu no dia, mas ficou ao fundo de tudo, como certas músicas que não ouvimos mas que continuam a marcar o ritmo do que fazemos. Não é presença nem ausência, é uma espécie de intervalo que não se explica bem.
No fim do dia, percebo que há dias feitos mais de tentativa do que de chegada. Hoje foi um deles. E talvez isso baste.
Há uma estranha disciplina nas coisas pequenas, cadeiras, fios, portas fechadas, planos que não avançam. Tudo isso ensina sem dizer nada. E no meio desse ensino mudo, fico a pensar que também as pessoas funcionam assim, não pelo que dizem, mas pelo modo como resistem ao dia.
Hoje não houve revelações. Só continuidade. E talvez a vida seja isso mesmo, um conjunto de coisas que não se resolvem, mas que mesmo assim continuam.
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