O peso leve dos dias que não dizem tudo

Terça-feira, 28 de Dezembro de 1976

A manhã abriu-se sem pressa, como se também ela estivesse a decidir se valia a pena começar. Levantei-me cedo, com aquele hábito antigo que não pergunta se o corpo está de acordo. Pequeno-almoço simples, quase automático, e depois o barbeiro, o ritual de aparar o que sobra por fora quando por dentro já há demasiadas coisas por ajeitar.

No regresso a casa cruzei-me com a Odília. Ela vinha da loja, como quem vem apenas cumprir um caminho que não pesa. Parou, falou comigo. Conversa curta, dessas que parecem leves mas deixam pequenas marcas escondidas.

Então, cortaste o cabelo? — disse ela, a sorrir.

Já não dava para adiar.

Ela riu-se. Um riso normal, sem intenção nenhuma. Mas há dias em que tudo o que é normal parece inclinar ligeiramente o mundo.

Ficámos ali mais um pouco do que devíamos. O Manel estava comigo, calado, a assistir como quem não quer interferir no que não lhe pertence. Quando ela foi embora, ficou no ar uma espécie de desvio, pequeno, mas suficiente para eu já não saber bem por onde seguir o resto do dia.

Voltei para casa. E depois voltei outra vez para a rua, como se esperasse que o tempo corrigisse alguma coisa. Esperei-a. Não sabia bem porquê. Talvez não fosse espera, mas insistência disfarçada.

Passou meia hora depois de o Manel se ter ido embora. Ela apareceu.

E eu não gostei desse encontro.

Não por ela. Não exactamente. Mas pelo que ficou suspenso entre nós, como se duas frases ditas sem maldade tivessem a força de deslocar qualquer coisa mais antiga do que nós próprios. Houve ali um instante em que senti que até a Terra podia perder o eixo por coisas pequenas.

Não disse nada de importante. Ela também não.

Mas eu voltei para casa diferente.

Ajudei o meu pai a engarrafar vinho. O cheiro encheu a cozinha, quente e antigo, quase reconfortante. Ele falava devagar, como sempre. Eu respondia pouco. Estava enervado sem saber explicar bem a origem disso tudo. E, no meio dessa dispersão, esqueci-me do que tinha combinado com a Odília. Ou talvez tenha deixado o esquecimento acontecer como forma de fuga.

No almoço, o corpo voltou ao lugar, mas a cabeça não. Depois fui para o centro. Uns colegas, conversa solta, coisas de nada que ocupam o tempo como quem varre folhas sem perguntar de onde vieram.

Mais tarde, a reunião. Papéis, vozes, um esforço colectivo para organizar conversas entre “mesa” e assistência. Eu ouvia mais do que falava. A meio levantei-me e saí.

A bicicleta foi o contrário da sala, vento directo, pensamento sem paredes. Andei sem destino, só para não ficar parado dentro de mim. E depois regressei, como se o corpo tivesse decidido por mim.

Em casa, lanchei. Televisão ligada sem atenção. As imagens passavam, mas não ficavam.

E foi então que pensei na Dila.

Não porque ela estivesse ali, mas porque nunca deixa de estar completamente ausente. Há dias em que a presença dela não precisa de acontecer para pesar. Imagino-a a andar por qualquer sítio que não conheço bem, com o mesmo silêncio que às vezes lhe reconheço nos olhos.

Estás bem? — perguntei-lhe, numa conversa que só existiu dentro de mim.

E a resposta dela veio como sempre vem, sem pressa:

Estou. Mas tu não estás onde devias estar.

Não sei se isto foi lembrança ou invenção. Às vezes já não distingo.

Mais tarde fui para a Academia. Desejei “boa entrada no Ano Novo” a quem encontrei. As palavras foram leves, quase automáticas, mas tinham um fundo de passagem, como se estivéssemos todos a empurrar o tempo para a frente sem saber bem o que ele vai devolver.

Quando voltei a casa, jantei com o meu pai. Falámos pouco. E esse pouco bastou.

No fim da noite, fiquei com a sensação de que o dia não tinha sido grande coisa, mas tinha sido cheio de pequenas inclinações invisíveis.

Há dias assim, não fazem barulho, mas mudam o rumo.

No silêncio antes de dormir, pensei na Dila outra vez. Não como resposta, mas como pergunta que não se fecha.


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