O frio que atravessa as coisas silenciosas

Quarta-feira, 29 de Dezembro de 1976

A manhã abriu-se como tantas outras, sem pressa de ser diferente. Levantei-me ainda com o corpo preso ao sono, esse peso que demora sempre mais do que devia a abandonar-nos. Tomei o pequeno-almoço em silêncio e segui para o centro, como quem já sabe o caminho de olhos fechados.

Passei a manhã a escrever e a reorganizar os cadastros dos mineiros. Papéis atrás de papéis, nomes que se repetem como se a vida fosse uma lista interminável. Há qualquer coisa de estranho em lidar com vidas assim, reduzidas a linhas e números. Ao meio-dia regressei a casa.

Almocei depressa. O meu pai chamou-me para irmos ao Porto. Fomos. O Porto estava frio, com aquele vento que parece vir sempre com más notícias ou apenas com pressa. Comprei um “anorak”, coisa prática, coisa de proteger o corpo do mundo, tirei o passe, e voltámos.

Em casa, o tempo voltou a abrandar. Lanchei e fui outra vez para o centro. O dia parecia dividido em idas e regressos, como se eu próprio fosse apenas uma passagem entre lugares.

No regresso a casa, passei pelo pai da Odília. O carro estava parado em frente da minha casa. Fiquei a olhar um instante mais do que devia. Há presenças que não dizem nada, mas mesmo assim perturbam. Não era ele o problema. Era o que aquilo sugeria sem dizer.

Entrei em casa, pousei a mala. Peguei num termómetro do grupo e, quase por impulso, quis saber a temperatura. Em três minutos caiu abaixo de zero. Sorri sem motivo. Há números que dizem mais do que o frio, dizem distância.

Nesse momento pensei na Dila. Não por um acontecimento concreto, mas por essa forma que ela tem de aparecer mesmo quando não está. Como se certas pessoas tivessem o hábito de permanecer nas margens do pensamento.

Estás sempre com esse ar de quem mede tudo”, disse-me ela um dia, meio a rir, meio a sério.

E tu vês demasiado bem”, respondi-lhe.

Ela não respondeu logo. Só olhou. E nesse olhar havia sempre qualquer coisa que não se dizia.

Jantei mais tarde com o meu pai. Depois fomos a casa do Mazola. Falou-se de coisas pequenas, como se isso fosse suficiente para ocupar o mundo. Saímos depois para o café. Íamos ao centro, mas mudámos de ideias a meio do caminho. Voltámos para trás sem explicação, como quem aceita que nem tudo precisa de chegar a lado nenhum.

Cheguei a casa. Ainda vi um pouco de televisão. Imagens sem peso, vozes sem rosto. E depois o silêncio.

No fim do dia, fica-me esta sensação estranha, tudo aconteceu, mas nada parece ter mudado. O frio entrou em todo o lado, até nas pequenas decisões. E eu, entre o trabalho, os regressos e os gestos automáticos, continuo a sentir que há coisas que não cabem em nenhum registo, nem mesmo nos cadastros que organizo com tanta ordem.

A Dila continua a ser uma dessas coisas. Não desarruma o mundo, mas também não o deixa ficar igual.


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