O frio que fica nas mãos

Quinta-feira, 30 de Dezembro de 1976

A manhã começou simples, quase sem vontade de se anunciar. Levantei-me e tomei o pequeno-almoço como quem cumpre um gesto antigo, repetido mais pela memória do corpo do que pela fome. Depois saí para o centro.

O frio estava já instalado na rua, não como um visitante passageiro, mas como alguém que se sente em casa e não arreda pé. Dois graus positivos não parecem muito quando se dizem em voz alta. Mas na pele, nos ossos, nas mãos enfiadas nos bolsos apesar das luvas, tornam-se outra coisa. Uma teimosia do inverno.

Passei a manhã a andar sem grande destino fixo. Os colegas apareceram a meio, como acontece às vezes, e foi como se o dia ganhasse um rumo improvisado. Falou-se pouco enquanto caminhávamos até à casa das máquinas das antigas minas. O lugar tinha aquele silêncio pesado de estruturas abandonadas, onde tudo parece ter deixado de funcionar mas continua a lembrar que já funcionou.

Estávamos com pressa. Talvez mais impaciência do que pressa. Por isso voltámos cedo, deixando o espaço para outro dia, ou para outra desculpa qualquer.

Foi já no regresso ao centro que a vi.

A Dila estava junto ao muro baixo, onde o sol de inverno ainda conseguia tocar por instantes. Não fazia nada de especial. Só estava ali, como se o tempo fosse menos agressivo quando ela não se movia depressa.

Ela olhou-me primeiro. Depois o resto veio sozinho.

Estás com pressa outra vez — disse ela, sem acusar, só a constatar.

Hoje não sei bem o que tenho — respondi. — É o dia que anda mais depressa do que eu.

Ela sorriu de lado, aquele sorriso que não chega a abrir-se todo, mas também não se esconde.

O dia não anda depressa. Tu é que estás sempre um pouco atrás dele.

Não respondi logo. Às vezes há frases que ficam a pairar como poeira no ar frio.

Ficámos um instante assim, sem necessidade de preencher o silêncio. Depois ela perguntou se eu voltava mais tarde ao centro. Disse-lhe que sim, provavelmente. Não era uma promessa, era apenas uma possibilidade dita em voz alta.

Quando nos despedimos, ela tocou de leve no meu braço. Um gesto breve, quase distraído, mas que ficou mais tempo comigo do que a própria manhã.

Voltei a casa para almoçar. O prato tinha o sabor normal das coisas que não se comentam. E isso, de certa forma, também é paz.

À tarde regressei ao centro. Voltei novamente à casa das máquinas, mas desta vez o espaço já não parecia o mesmo. Talvez porque o dia já tinha avançado, talvez porque eu próprio já estava um pouco gasto por dentro.

Antes disso, estive a trabalhar na armadura para o aparelho a pilhas. O tal projector de “slides” que comecei a chamar PS-I, como se dar nome às coisas lhes desse mais firmeza. As mãos mexiam-se devagar, com aquela precisão que não é pressa nem lentidão, mas hábito.

Houve um momento em que pensei na Dila enquanto ajustava uma peça metálica. Não por distração, mas como se a ideia dela tivesse entrado no circuito do trabalho sem esforço. É estranho como certas pessoas ocupam espaços onde não estão.

Já ao fim da tarde consegui finalmente voltar à casa das máquinas. Mas já não havia muito para fazer. O dia tinha começado a fechar-se por dentro antes de o céu dar sinal.

Quando anoiteceu, vim embora.

Em casa, o resto foi uma sequência tranquila, lanche, televisão a meio volume, o jornal aberto mais por companhia do que por interesse. Depois o jantar, e novamente a televisão até fechar o dia como se fecha uma porta sem trancar.

E no meio disso tudo, ainda fiquei com o frio nas mãos.

Não o frio de fora. Esse passa. Mas aquele que fica depois de certas conversas, depois de certos silêncios com a Dila, como se o corpo guardasse pequenas ausências sem saber onde as colocar.

Talvez seja isso o mais difícil de explicar, há dias que parecem banais enquanto acontecem, mas deixam um rasto que não se vê logo.

Hoje foi um desses.

No fundo, o que fica não são as minas, nem o trabalho, nem sequer o projector PS-I que insiste em nascer devagar.

O que fica é a forma como ela disse que eu estou sempre um pouco atrás do dia.

E talvez esteja. Ou talvez o dia é que nunca espere por ninguém.


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