A noite que já trazia o ano novo dentro de si

Sexta-feira, 31 de Dezembro de 1976

Acordei cedo, como se o dia me empurrasse antes mesmo de eu abrir bem os olhos. O pequeno-almoço soube-me a rotina apressada, e depois saí com a minha irmã. O caminho até ao centro fez-se com poucas palavras. Há dias em que a companhia basta, mesmo quando o silêncio fala mais alto.

No DIFI, passámos a manhã a limpar. Poeira, papéis, pequenos gestos mecânicos que, no fundo, nos ocupavam mais a cabeça do que as mãos. A minha irmã movia-se com aquela firmeza dela, como se cada coisa tivesse o seu lugar exacto no mundo. Eu seguia-lhe o ritmo, mas por dentro ia noutro lado.

Havia qualquer coisa em mim que não estava ali por completo.

Voltámos a casa para almoçar. A comida soube a pausa curta entre duas pressas. E logo depois regressámos ao centro, sem demora. O dia parecia não querer parar.

Mais tarde, eu, a minha irmã mais velha e dois colegas seguimos para o Porto. A cidade recebeu-nos com a sua vida habitual, indiferente ao nosso pequeno propósito. Encontrámo-nos com outro elemento do grupo, que já esperava depois do telefonema da manhã. Entrámos num café. Rimos. Falámos sem grande ordem. O tipo de conversa que não deixa marca, mas ocupa o tempo como deve ser.

Fumei um cigarro pela primeira vez. Senti a tontura subir depressa, quase como uma lembrança de que o corpo também tem limites. Passou. Tudo passa, afinal, se não lhe dermos demasiada importância.

Depois fomos a uma casa de música. Instrumentos por todo o lado, silenciosos à espera de quem lhes arrancasse vida. Não toquei em nada, mas observei tudo. Havia ali uma espécie de promessa suspensa, como se cada guitarra soubesse mais do que nós sobre o que ainda não aconteceu.

Mais tarde ainda, fomos ao CEAFI. Entrámos com duas caras, curiosidade e intenção. Quisemos mostrar mais do que éramos, engrandecer o grupo, parecer maiores por dentro do que éramos por fora. E, de algum modo, conseguimos. Ou talvez tenhamos apenas convencido quem precisava de ser convencido.

No regresso, a noite já tinha caído por completo.

A vila parecia outra quando voltei. Ou talvez fosse eu.

Em casa, esperei pelo jantar de passagem de ano. A mesa com aquele peso habitual de fim e recomeço ao mesmo tempo. Depois vieram as doçarias, o chá quente, e esse silêncio estranho que antecede a meia-noite, como se tudo estivesse suspenso.

E foi aí, nesse intervalo, que pensei nela.

Na Dila.

Não sei bem em que momento ela se tornou esse ponto fixo dentro dos dias. Mas hoje, entre o Porto e o CEAFI, entre o fumo do cigarro e o brilho dos instrumentos, ela apareceu-me sem aviso. Não como presença, mas como falta.

Estás aí?” — perguntei-lhe em pensamento, como quem testa uma porta fechada.

E a resposta, claro, não veio. Mas ficou o eco.

Agora escrevo já quase fora do ano. A caneta corre com pressa, como se também ela quisesse atravessar o tempo.

E penso que há anos que não acabam. Apenas mudam de pele.

Este dia foi cheio de coisas que fizemos para fora, mas pobre daquilo que se fez dentro de mim. O mundo passou depressa, com cafés, viagens e lugares que parecem importantes só porque lhes damos nome.

Mas há uma outra coisa a crescer em silêncio — e essa não precisa de nome.

Talvez o novo ano comece aí. Não na meia-noite. Mas nesse espaço onde tudo o que não dissemos continua a respirar.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »