O Dia Zero

Março de 1975

Semana zero

Recordo uma manhã de Março, ainda em plena Primavera. Estava de férias do liceu, estendido no sofá da sala, sentindo o tecido fresco sob a pele, ouvindo o tilintar dos pratos e o murmúrio da minha mãe ocupada nos afazeres domésticos. As minhas irmãs vagueavam pelo seu próprio mundo, passos leves sobre o soalho, e o meu pai já tinha saído cedo, como sempre. O silêncio que ficou era suave, perfumado pelo aroma do pão fresco e pelo cheiro das flores que a minha mãe cuidava no quintal.

Levantei-me e percorri a nossa pequena casa de rés-do-chão. Cada espaço guardava qualquer coisa de invisível, o frio do soalho de manhã, a madeira quente das portas, o eco da minha voz pelos corredores. Ao fundo do quintal, o capoeiro exalava o cheiro terroso das galinhas e dos coelhos, e o lago dos patos reflectia a luz do sol como um espelho. As árvores de fruto, ameixoeira, laranjeira, limoeiro, tangerineira e figueira, davam sombra e perfume, e o ar era fresco, misturado com húmus, seiva e flores.

Entretive-me a separar pedras multicoloridas de uma escova de roupa. O toque áspero das pedras, a fricção nos dedos, o brilho que reflectia a luz faziam-me perder a noção do tempo. Foi então que o Manel chegou a correr pelo caminho de terra, com o cheiro da relva molhada a preceder-lhe a presença:

— O que vais fazer com essas pedras todas? — perguntou, curioso.

— Ainda não pensei muito… quero fazer um bastão com uma cana, colando as pedras como num filme egípcio que vi na televisão — respondi, sentindo a madeira da escova e o frio do metal nas mãos.

— Tenho de fazer um recado à minha mãe… queres vir comigo? No Alto do Depósito há um caniçal, e podes cortar quantas canas quiseres — disse ele.

Aceitei sem hesitar. Pelo caminho falámos de tudo e de nada, passos a ranger na terra, sol a aquecer a pele, cheiro do pó da estrada misturado com a relva recém-cortada. Eu livre para vaguear, ele limitado pelos muros da sua casa, aproveitando cada saída como uma pequena fuga.

Chegámos ao Alto do Depósito. A vista abria-se ampla, o depósito de água reflectia o céu azul, o Alto do Gódio erguia-se negro com escórias de carvão, o Poço de S. Vicente destacava-se com a sua torre metálica, e os lameiros atrás exalavam cheiro húmido de terra e lama. Ao longe, a Serra da Pia estendia-se quieta.

Descemos por um caminho de terra até ao caniçal. Nunca ali estivera. O frio da manhã cedia ao calor que subia do solo. Mais abaixo chegámos à moradia amarela que era o destino do Manel. Ele desapareceu pelo portão em direcção às traseiras, e eu fiquei a descascar canas, sentindo a textura rugosa e fibrosa nos dedos, até ouvir vozes. A do Manel e uma outra, feminina e jovem, que me fez levantar os olhos.

Ainda me recordo da primeira vez que vi a Dila. O Manel chamou-me e eu virei-me. Foi tudo muito rápido. Os cabelos escuros, os olhos, claros, inesperados, e uma voz que ouvi antes de perceber o que dizia. Fiquei parado, as canas na mão, sem saber para onde olhar. O Manel aproximou-se e, vendo-me imóvel, disse:

— Então, o que tens?

— Quem… quem é ela? — perguntei, sem fôlego.

— É a Dila — respondeu ele.

— Ela é linda… — murmurei.

Ele riu-se, sem perceber a turbulência que me agitava. Nem eu compreendia. Apenas sentia.

Voltei para casa com os pés no chão e a cabeça noutro sítio. Em casa, deitei as canas de lado e recebi um raspanete da minha mãe pelo almoço esquecido. Sentei-me no sofá e tentei ver televisão, mas tudo parecia sem cor. Dila. Apenas o nome rodava na mente, acompanhado daqueles olhos e do sorriso que nem o Manel conseguia interpretar.

Horas passaram em semi-consciência. A voz da minha mãe chamou-me:

— Tono… Tono…

— Não sou surdo… — murmurei, meio ensonado.

Foi o Manel quem me salvou, entrando apressado:

— Sabes onde fui?

— Fui à casa da Dila!

Parei. O estômago apertou-se de uma forma que não esperava.

— Então, não dizes nada? — continuou ele.

— Não… — murmurei.

— Sim… então, o que foste lá fazer? Podias ter-me dito que eu ia contigo!

— Fui com o meu pai — disse ele, sorrindo. — Por isso não vim ter contigo.

— Ficaste de beicinho pela Dila, não é verdade? — continuou, e eu senti-me ruborizar.

— O que queres dizer com isso? — perguntei.

— Alguém quis saber quem eras, onde moravas… e o teu nome.

— Quem?… A Dila? — perguntei, incrédulo.

— Claro! De quem mais?

— Tens a certeza?

— Mau! Duvidas de mim? Então esquece — disse ele, fingindo zangar-se.

— Não, não! Eu acredito… custa-me acreditar que ela reparou em mim. Disse mais alguma coisa?

— Perguntou onde estudavas. Quando lhe disse que andavas no Alexandre Herculano, corou…

— Porquê? — perguntei, interrompendo.

— Porque ela anda no Rainha Santa Isabel, no liceu ao lado do nosso.

— A sério? E tem aulas de manhã ou de tarde?

— Mau… Agora perguntas as mesmas coisas? — disse ele, rindo.

— Porquê? Ela também perguntou se eu tinha aulas de manhã ou de tarde? E o que respondeste?

— Que tínhamos aulas de manhã… e ela disse que também tinha.

— Disse a que horas ia e em que paragem entrava? — perguntei.

— Não disse. Nessa altura o meu pai chamou-me e viemos embora.

— Quando voltas lá? — perguntei.

— Não achas que são muitas perguntas? O amor anda no ar… — disse ele, com ironia.

— Oh… — respondi, afastando-me, corando até à raiz do cabelo.

— Tenho de ir embora, a minha mãe não sabe que vim aqui. Até amanhã — disse ele, partindo a correr.

A tarde passou devagar. Estava nas nuvens. Amor? Seria aquilo que sentia?

Depois do jantar deitei-me sem ver televisão. O sono custou a vir, mas antes de adormecer senti a alvorada a espreitar pelos interstícios da persiana, embalando-me em sonhos que ainda não tinha palavras para descrever.


Hoje sei o que foi aquele dia. Na altura, não sabia ainda dar-lhe nome. A leveza de uma manhã de Março, a presença da família, e o primeiro encontro com a Dila ficaram gravados em mim de forma que o tempo não apagou. Foi o dia em que o mundo começou a parecer maior e mais complexo, mas também mais cheio de possibilidades. Dei os primeiros passos para descobrir o que significa sentir, desejar, esperar. E tudo o que se seguiu nos dias subsequentes deve-se, de algum modo, a esse instante, a essa pequena aventura, a esse olhar que não mais me largou.


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