A Constância do Teu Regresso

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Sábado, 30 de Abril de 1977

Cheguei cedo à paragem.

Era o último dia de aulas do mês e havia naquela manhã uma luz diferente. Abril aproximava-se do fim, mas o ar já cheirava claramente a Primavera.

A Dila apareceu pouco depois.

Trazia os livros apertados contra o peito e, ao ver-me, sorriu daquele modo tranquilo que já fazia parte das minhas manhãs.

— Hoje não chegaste primeiro por muito.

— Cinco minutos também contam.

— Contam para quem gosta de ganhar.

— Exactamente.

Ela abanou a cabeça.

— És impossível.

O trólei surgiu ao fundo da rua.

Subimos e encontrámos dois lugares.

Durante a viagem falou-se pouco das aulas.

Os nossos pensamentos pareciam já estar no fim-de-semana.

— Tens muitos planos para hoje? — perguntou.

— Bastantes.

— DIFI outra vez?

Assenti.

Ela conhecia demasiado bem o que aqueles problemas significavam para mim.

— Achas que hoje fica resolvido?

Pensei antes de responder.

— Acho que hoje, pelo menos, vai começar a resolver-se.

Ela olhou para mim.

— Espero que sim.

Sorri.

— Eu também.

Depois de um breve silêncio acrescentou:

— Gosto mais de te ver preocupado com a escola do que com essas reuniões.

Ri-me.

— Isso é impossível.

— Eu sei.

Olhou pela janela.

— Mas posso continuar a sonhar.

Aquela frase ficou comigo durante o resto da viagem.

Ela nunca me dizia o que devia fazer. Limitava-se a mostrar, com pequenas frases, aquilo que desejava para mim.

As aulas decorreram sem novidade.

Durante um furo aproveitei para ir ao emprego da minha irmã.

A Rita recebeu-me com a simpatia habitual.

Conversámos alguns minutos.

Perguntou-me pelas aulas, eu perguntei-lhe pelo trabalho.

Era uma conversa simples.

Agradável.

Antes de sair, desejei-lhe um bom fim-de-semana.

Ela respondeu com um sorriso.

Regressei ao liceu a tempo da última aula.

Ao meio-dia fui encontrar a Dila.

Começámos o caminho de regresso como fazíamos quase todos os dias.

— Então, já conseguiste resolver a história dos autocolantes? — perguntou ela.

Suspirei.

— Ficou resolvido finalmente.

Ela soltou uma pequena gargalhada.

— Vocês conseguem complicar tudo.

— É um dom.

— Não. É falta de organização.

— Também.

Continuámos a caminhar.

Durante a viagem falou-me de um trabalho que tinha para fazer no fim-de-semana e de uma professora que insistia em marcar testes para as primeiras aulas da manhã.

Eu ouvia-a mais do que falava.

Gostava daquela facilidade com que saltávamos de um assunto para outro sem precisarmos de procurar conversa.

Havia dias em que bastava estarmos os dois.

Quando chegámos à nossa paragem habitual, ela ajustou os livros ao peito.

— Boa sorte para a reunião de hoje.

Sorri.

— Espero que desta vez fique tudo resolvido.

— Segunda-feira contas-me.

— Conto.

Despediu-se com um sorriso e atravessou a rua.

Fiquei a vê-la afastar-se durante alguns segundos.

Só depois segui para casa.

Depois de almoço experimentei uns bastões novos.

Passei algum tempo a adaptar-me ao peso e ao equilíbrio.

Ainda não obedeciam exactamente ao movimento das minhas mãos, mas isso viria com o treino.

Mais tarde encontrei-me com os colegas.

Seguimos todos para o centro.

Sabíamos que a reunião seria decisiva.

Durante duas semanas o DIFI estivera fechado para nós.

Duas semanas que me pareceram muito mais longas.

Quando entrámos, o ambiente estava menos tenso do que nas reuniões anteriores.

Talvez todos estivéssemos cansados de discutir.

As conversas prolongaram-se.

Nem todas as decisões foram tomadas da forma que eu considerava mais justa.

Houve votações rápidas.

Algumas imposições.

Cedências de ambas as partes.

No fim, porém, alcançou-se um acordo.

Voltávamos ao DIFI.

Quando a porta da sala se abriu novamente, entrei devagar.

Olhei em redor.

Tudo estava praticamente no mesmo sítio.

As mesas.

Os armários.

Os arquivos.

O silêncio.

Era estranho sentir tanta alegria por voltar a uma sala tão modesta.

Mas aquele espaço representava meses de trabalho, de amizade e de projectos.

Dois novos elementos juntaram-se ao grupo.

Outro decidiu sair.

Percebi então que os grupos também têm a sua própria vida.

Mudam.

Crescem.

Perdem pessoas.

Recebem outras.

E continuam.

Saímos perto das sete da tarde.

No caminho para casa, o Manel deu-me uma palmada nas costas.

— Afinal conseguimos.

Olhei para ele e sorri.

— Conseguimos.

Mas, dentro de mim, a maior satisfação não vinha da vitória.

Vinha do alívio.

Finalmente aquela história começava a ficar para trás.

Em casa lanchei.

Vi um pouco de televisão.

Mais tarde jantei.

Antes de me deitar ainda treinei durante alguns minutos com os bastões novos.

Os movimentos saíam agora com um pouco mais de naturalidade.

Quando finalmente me deitei, pensei no mês que terminava.

Abril fora um mês estranho.

Começara com pequenas inquietações.

Passara pela falsa história do Manel, que acabara por me obrigar a olhar para a vida de outra maneira.

Trouxera a Rita, que despertara em mim uma curiosidade nova.

Trouxera também discussões, reuniões e preocupações com o DIFI.

Mas, no meio de tudo isso, houve uma coisa que nunca vacilou.

Todas as manhãs, quase sem falhar, encontrei a Dila na mesma paragem.

E comecei a perceber que talvez fossem essas repetições silenciosas que davam equilíbrio às mudanças.

Enquanto tantas coisas à minha volta se transformavam, bastava vê-la aproximar-se ao fundo da rua para sentir que ainda havia lugares onde tudo continuava exactamente como devia ser.


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