Entre o Encanto e a Proximidade
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Sexta-feira, 29 de Abril de 1977
A manhã começou como tantas outras.
Cheguei à paragem ainda antes da Dila.
Gostava daqueles poucos minutos de espera. Já conhecia os rostos habituais, o som distante do trólei a aproximar-se e o movimento da rua a acordar lentamente. Mas, acima de tudo, gostava daquele instante em que a via surgir ao fundo da rua. Ainda antes de lhe distinguir o rosto, reconhecia-lhe a maneira de caminhar, a forma como segurava os livros junto ao peito e o pequeno gesto de afastar o cabelo quando o vento o trazia para a frente dos olhos.
Quando me viu, sorriu.
— Hoje voltaste a ganhar.
— Ainda bem. Já estava a perder o jeito.
Parou ao meu lado.
— Parece que já nem coxeias.
— O teu diagnóstico estava certo.
— Eu disse que passava.
O trólei chegou logo depois.
Entrámos e sentámo-nos junto à janela.
A conversa começou nas aulas, como era habitual, mas depressa derivou para os planos do fim-de-semana.
— Amanhã tens aulas?
— Infelizmente.
Ela fez uma careta.
— Nunca pensei ter saudades das férias tão depressa.
— Eu acho que as férias acabam sempre na semana anterior.
Ela riu-se.
— Isso faz algum sentido?
— Para mim faz.
Olhou para mim de lado.
— Tu inventas teorias para tudo.
Encolhi os ombros.
— Alguém tem de pensar nestas coisas.
Riu novamente.
Gostava daquele riso espontâneo que aparecia sem esforço.
Era impossível não rir também.
As aulas passaram depressa.
Os dois últimos tempos aproveitei-os para sair com um colega e ir buscar os autocolantes do DIFI à tipografia.
Quando chegaram à nossa frente, cuidadosamente embrulhados, senti uma satisfação difícil de explicar.
Não eram apenas autocolantes.
Eram mais um pequeno passo para manter vivo o grupo, apesar de todas as dificuldades dos últimos tempos.
O entusiasmo durou pouco.
Quando chegou o momento de pagar, percebemos que o dinheiro não chegava.
Olhámos um para o outro.
— Não há outra hipótese.
— Temos de voltar.
Regressámos ao liceu quase a correr para resolver o problema.
Tudo acabou por se compor, mas perdemos mais tempo do que esperávamos.
À hora de saída fui esperar a Dila.
Ela apareceu poucos minutos depois.
Assim que me viu perguntou:
— Correu bem?
Sorri.
— Correu... mais ou menos.
Contei-lhe o episódio do dinheiro insuficiente.
Ela abanou a cabeça.
— Vocês conseguem complicar as coisas mais simples.
— Faz parte do nosso talento.
Começou a rir.
Durante a viagem de regresso falou-me de um trabalho que tinha para fazer durante o fim-de-semana.
Eu escutava-a mais do que respondia.
Começava a reparar que gostava de a ouvir falar das coisas mais banais.
Não era importante o assunto.
Era a maneira como o contava.
Quando nos despedimos, fiquei a vê-la afastar-se durante alguns segundos.
Era um gesto que fazia cada vez com mais frequência.
E que já me parecia completamente natural.
Mal cheguei a casa deixei os livros, mudei de camisola e voltei ao Porto.
Passei primeiro pela STCP para tratar do talão do passe.
Depois fui finalmente levantar os autocolantes.
Desta vez trouxe-os comigo.
Gostei de sentir o volume do pacote debaixo do braço.
Era um trabalho concluído.
Mais tarde fui ao emprego da minha irmã.
A Rita estava a conversar com um cliente.
Esperei.
Quando ficou livre, aproximou-se.
— Então? Já tens os autocolantes?
Sorri, surpreendido por ela se lembrar.
— Já.
— Correu bem?
— À segunda tentativa.
Ela riu-se.
— Isso já é costume, não é?
— Infelizmente.
Fiquei algum tempo a fazer companhia à minha irmã e à Rita.
A conversa foi simples, descontraída.
Continuava a sentir aquele fascínio discreto por ela, mas já não tinha a urgência dos primeiros dias.
Era uma admiração serena.
Talvez porque começasse, sem dar por isso, a distinguir encantamento de proximidade.
Com a Rita imaginava conversas.
Com a Dila vivia-as.
A diferença parecia pequena.
Na verdade, era enorme.
Segui depois para a Academia.
Nessa tarde não treinei.
O corpo ainda dava sinais dos excessos dos dias anteriores e preferi assistir ao treino dos outros.
Regressei a casa com o primo do Benjamim.
Falámos de Karaté durante quase todo o caminho.
Cheguei já de noite.
Depois de jantar espalhei os autocolantes sobre a mesa da sala e comecei a contá-los cuidadosamente.
Uma pilha.
Outra.
Mais outra.
Gostava daquela ordem.
Da sensação de que tudo batia certo.
Quando terminei, arrumei-os novamente.
Ainda vi um pouco de televisão antes de me deitar.
Enquanto apagava a luz ocorreu-me um pensamento curioso.
Durante meses achei que crescer significava viver grandes aventuras.
Agora começava a descobrir outra coisa.
Talvez crescer fosse, afinal, aprender a dar valor às pequenas fidelidades.
Esperar todos os dias na mesma paragem.
Cumprir aquilo a que nos comprometíamos.
Voltar onde era preciso voltar.
E encontrar felicidade em gestos tão simples que quase passavam despercebidos.
Talvez fosse isso que, sem saber, eu andasse a aprender.
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