Onde o Tempo Não Pede Razões

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Quinta-feira, 28 de Abril de 1977

Naquela manhã acordei já sem a dor insistente na perna que me acompanhara nos últimos dias.

Quando cheguei à paragem, a Dila estava encostada ao poste, distraída a observar os cabos aéreos brilhantes do trólei.

Assim que me viu, olhou imediatamente para a minha maneira de andar.

Sorri.

— Hoje passo na inspecção?

Ela fez um ar muito sério.

Deu uma pequena volta à minha frente, como se estivesse realmente a inspeccionar-me.

— Hum...

Esperou um instante.

— Ainda coxeias um bocadinho.

— Isso já é implicância.

Ela riu-se.

— Talvez seja.

Subimos para o trólei e, como acontecia quase todos os dias, encontrámos dois lugares juntos.

O veículo arrancou lentamente.

Durante alguns minutos limitámo-nos a olhar pela janela.

O Porto começava a aquecer com a Primavera. As árvores tinham ganho folhas novas, as pessoas vestiam roupa mais leve e até a luz parecia diferente.

A Dila quebrou o silêncio.

— Sabes... a minha mãe perguntou ontem por ti.

Olhei para ela.

— Por mim?

— Sim.

— E o que é que respondeste?

Sorriu.

— Que continuavas igual.

— Espero que tenhas dito bem.

— Disse que continuavas parvo.

Olhei para ela, fingindo indignação.

— Isso é uma grande injustiça.

Ela encolheu os ombros.

— Também disse que eras boa pessoa.

Ficámos ambos calados.

Não era frequente falarmos das nossas famílias.

Quando isso acontecia, havia sempre um certo cuidado nas palavras.

Lembrei-me então das preocupações que ela tivera semanas antes, quando acreditara na história inventada pelo Manel e receara que os pais lhe proibissem definitivamente a nossa amizade.

Tudo isso parecia agora distante.

Não esquecido.

Apenas mais pequeno.

Como uma onda que já perdera a força ao chegar à areia.

Enquanto descíamos na nossa paragem, ela perguntou:

— Hoje tens muitos trabalhos?

— Alguns.

— Eu também.

Suspirou.

— O tempo passa depressa.

— Passa sempre.

Ela sorriu.

— Ainda bem que as manhãs continuam iguais.

Não respondi.

Também pensava exactamente o mesmo.

As aulas decorreram sem novidades.

Ao fim da manhã fui esperá-la.

Mal saiu do liceu veio ao meu encontro.

Durante a viagem de regresso conversámos sobre um teste que se aproximava e sobre um professor que insistia em complicar tudo.

Ríamos das pequenas coisas, como sempre.

Era curioso.

As nossas conversas já não tinham a agitação dos primeiros meses.

Já não sentíamos necessidade de falar sem parar.

Agora havia pausas.

Silêncios.

Momentos em que bastava caminharmos lado a lado.

E, no entanto, sentia-a mais próxima do que nunca.

Começava a perceber que a verdadeira intimidade talvez nascesse precisamente aí.

Quando já não era preciso preencher todos os espaços com palavras.

Depois de almoço deitei-me no quarto.

Levei comigo um gravador e algumas cassetes.

Escolhi uma ao acaso.

A música começou a encher lentamente o silêncio da casa.

Adormeci por momentos.

Quando acordei já era hora do lanche.

Pouco depois apareceu o Manel.

— Trouxe uma coisa.

Tirou uma cassete do bolso.

— Lembras-te?

Sorri imediatamente.

Era uma gravação antiga.

Do tempo em que ainda éramos três inseparáveis.

Sentámo-nos os dois a ouvi-la.

As vozes eram mais novas.

Mais despreocupadas.

As gargalhadas sucediam-se umas às outras.

Houve momentos em que parámos apenas para rir de nós próprios.

— Parecemos miúdos — disse eu.

O Manel respondeu sem hesitar.

— É porque éramos.

Fiquei a pensar naquela frase.

Às vezes imaginamos que crescemos de um dia para o outro.

Mas basta ouvir uma gravação antiga para percebermos que a mudança acontece devagar, quase sem se dar por ela.

A cassete terminou.

Nenhum de nós falou durante alguns segundos.

Talvez ambos estivéssemos a recordar pessoas e momentos que já não voltariam exactamente da mesma maneira.

Jantámos cedo.

Vi um pouco de televisão e, mais tarde, saí para a reunião no centro.

Começou já perto das dez e meia da noite.

O ambiente estava carregado antes mesmo de alguém abrir a boca.

Os problemas entre o nosso grupo e o CRM continuavam longe de estar resolvidos.

As intervenções sucediam-se.

Algumas eram ponderadas.

Outras deixavam-se dominar pela irritação.

Houve vozes mais altas.

Acusações.

Interrupções.

Olhares duros.

Eu escutava mais do que falava.

Quando intervim procurei manter a calma.

Não valia a pena acrescentar mais fogo a uma discussão que já ardia sozinha.

A reunião terminou exactamente à meia-noite.

Saí dali cansado.

Não tanto pelas horas.

Mas pelo desgaste.

Enquanto caminhava para casa ocorreu-me um contraste curioso.

De manhã bastava meia hora de conversa com a Dila para o mundo parecer simples.

À noite bastavam noventa minutos de reunião para tudo parecer complicado.

Talvez fosse essa a diferença entre as pessoas que nos davam paz e aquelas que apenas nos pediam razões.

Quando me deitei, ainda ouvi dentro da cabeça um pedaço da velha cassete que escutáramos durante a tarde.

As vozes de dois rapazes que julgavam ter todo o tempo do mundo.

Sorri no escuro.

Talvez ainda o tivéssemos.

Só ainda não sabíamos.


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