Quando o silêncio faz demasiado barulho
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Quarta-feira, 27 de Abril de 1977
A perna ainda doía quando acordei.
Assim que me levantei percebi que o treino da véspera me deixara pior do que imaginara. Coxeava ligeiramente e cada degrau da escada lembrava-me isso.
Mesmo assim saí à hora do costume.
A Dila já me esperava na paragem.
Mal me viu aproximar, franziu a testa.
— O que é que te aconteceu?
Sorri para a tranquilizar.
— Nada de especial.
— Estás a coxear.
— Ontem exagerei no treino.
Ela olhou para a minha perna com um ar preocupado.
— Dói muito?
— Agora menos.
Não acreditou completamente, mas aceitou a resposta.
Quando o trólei chegou, esperou que eu subisse primeiro.
Foi um gesto pequeno.
Tão natural que talvez outra pessoa nem reparasse.
Eu reparei.
Sentámo-nos junto à janela.
— O teu pai tratou-te da perna?
— Tratou. Ficou melhor.
— Ainda bem.
Ficámos alguns instantes em silêncio.
Depois ela sorriu.
— Ao menos hoje já falas.
Olhei para ela e ri-me.
— Achavas que ia voltar ao mau humor?
— Contigo nunca se sabe.
Deu-me um ligeiro toque no braço.
— Mas gosto mais desta versão.
Foi impossível não rir.
A viagem prosseguiu tranquila.
Falámos das aulas, de um professor que insistia em complicar aquilo que era simples e de um colega que conseguia adormecer em quase todas as disciplinas.
A certa altura, uma senhora idosa entrou no trólei.
Levantei-me para lhe dar o lugar.
Quando voltei a sentar-me, a Dila comentou em voz baixa:
— A tua perna ainda te dói e mesmo assim levantaste-te.
Encolhi os ombros.
— Ela precisava mais do lugar do que eu.
A Dila não respondeu.
Limitou-se a sorrir.
Era um daqueles sorrisos discretos que diziam mais do que um elogio.
As aulas passaram sem sobressaltos.
Quando terminaram encontrei primeiro o Manuel.
Conversámos alguns minutos à porta do liceu.
Ele continuava a brincar com a aventura do feriado, convencido de que me havia de transformar num conquistador como ele.
Ri-me das suas provocações, mas já sem lhes dar importância.
Depois fui esperar a Dila.
Saiu pouco depois, com os livros apertados contra o peito.
Ao ver-me, caminhou directamente para mim.
— Ainda estás inteiro?
— Por pouco.
Olhou novamente para a minha maneira de andar.
— Ainda coxeias.
— Amanhã já passa.
Ela abanou a cabeça.
— Ontem também disseste isso.
Sorri.
— Estás a ficar muito observadora.
— Sempre fui.
Enquanto regressávamos, falámos pouco.
Mas já não era o silêncio pesado do dia anterior.
Era um silêncio confortável.
Desses que não obrigam ninguém a procurar assunto.
Ao passarmos por uma montra, vimos reflectidas as nossas figuras lado a lado.
A Dila reparou primeiro.
— Parecemos mais altos.
Olhei para o vidro.
— Ou a montra está torta.
Ela desatou a rir.
— Tu estragas sempre os momentos sérios.
— Faço o que posso.
Continuámos a caminhar entre risos.
Por vezes bastava uma frase sem importância para tornar um dia inteiro mais leve.
Depois de almoço não me apetecia sair.
A perna continuava a incomodar-me e acabei por passar quase toda a tarde no meu quarto a ouvir música.
Mudava os discos devagar, deixava cada canção chegar ao fim e ficava muitas vezes a olhar para o tecto, sem pensar em nada de concreto.
Ou talvez pensasse em demasiadas coisas ao mesmo tempo.
No final da tarde apareceu o Manel.
Falámos um pouco.
Já não sobre raparigas, mas sobre o DIFI, os problemas com o CRM e os planos que continuávamos a fazer para o grupo.
Quando ele se foi embora, ensinei algumas técnicas de Karaté ao meu pai e à minha irmã Celeste.
O meu pai esforçava-se, mas acabava sempre por rir quando algum movimento lhe saía completamente ao contrário.
— Isto parece mais difícil do que tu fazes parecer.
— Porque tu queres fazer tudo depressa.
— E tu tens paciência para ensinar.
Olhei para ele.
Talvez tivesse aprendido isso sem dar por ela.
Com os colegas.
Com a Celeste.
Com a Dila.
Há pessoas que precisam de tempo.
Não de pressa.
Depois do jantar sentei-me a ver televisão.
Enquanto as imagens passavam diante de mim, pensei que os últimos dias tinham sido estranhos.
Uma pequena frustração bastara para me afastar da Dila durante uma manhã inteira.
E bastara também um pedido de desculpas para tudo voltar ao lugar.
Começava a perceber que as amizades verdadeiras não vivem da ausência de conflitos.
Vivem da vontade de não deixar que eles durem demasiado.
Olhei pela janela antes de me deitar.
No dia seguinte voltaria a encontrá-la na paragem.
Sorri.
Havia rotinas que, em vez de cansarem, davam descanso ao coração.
E talvez fosse exactamente por isso que eu nunca me cansava de as repetir.
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