As palavras que ficaram por dizer
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Terça-feira, 26 de Abril de 1977
Acordei ainda com o sabor amargo da véspera.
Não era propriamente tristeza.
Também não era inveja do Manel.
Era uma sensação difícil de explicar, como se tivesse descoberto qualquer coisa sobre mim próprio de que ainda não sabia o que fazer.
Encontrei a Dila na paragem.
Assim que me viu, percebeu imediatamente que alguma coisa não estava bem.
— Que cara é essa?
Encolhi os ombros.
— Nenhuma.
Ela olhou para mim durante alguns segundos.
Conhecia-me demasiado bem para acreditar nessa resposta.
Entrámos no trólei.
Sentámo-nos lado a lado, como sempre.
Ela esperou que o veículo arrancasse.
Depois voltou à carga.
— Então?
Olhei pela janela.
As ruas iam ficando para trás ao ritmo do zumbido dos cabos eléctricos.
Não respondi.
Pela primeira vez desde que nos conhecíamos, fui eu quem deixou morrer uma conversa antes de ela nascer.
A Dila também se calou.
Não por falta de vontade de falar.
Mas porque percebeu que eu precisava daquele silêncio.
Foi uma viagem estranha.
Estávamos juntos.
Tão perto como sempre.
E, no entanto, havia qualquer coisa entre nós que nunca ali estivera.
Não era zanga.
Era apenas uma porta fechada.
Quando saímos do trólei caminhámos até ao liceu quase sem trocar palavras.
Já perto do portão ela parou.
— Fiz alguma coisa?
Olhei para ela, surpreendido.
— Não.
— Tens a certeza?
— Claro.
Baixou os olhos por um instante.
— Então fui eu que imaginei.
Fiquei imediatamente arrependido.
Aquela tristeza não lhe pertencia.
Era minha.
E, no entanto, fora ela quem a carregara durante toda a viagem.
Aproximei-me um pouco.
— Desculpa.
Ela levantou os olhos.
— Pelo quê?
Sorri, sem grande convicção.
— Hoje acordei atravessado.
Ela estudou-me durante alguns segundos.
Depois respondeu apenas:
— Amanhã já passou.
Sorriu de leve e entrou no liceu.
Fiquei a vê-la afastar-se.
Percebi então como era fácil magoar alguém que gostava de nós.
Bastava um silêncio.
As aulas passaram sem que lhes prestasse grande atenção.
Quando terminaram, fui esperá-la.
Assim que me viu aproximar, sorriu exactamente da mesma maneira que sorria todos os dias.
Como se a manhã nunca tivesse acontecido.
Enquanto regressávamos, fui eu quem quebrou o silêncio.
— Fui parvo.
Ela olhou para mim.
— Um bocadinho.
— Desculpa.
Sorriu.
— Já te desculpei.
Ficámos calados durante alguns passos.
Depois acrescentou:
— Pensei que estavas zangado comigo.
— Nunca.
Ela respirou fundo.
— Ainda bem.
Aquelas duas palavras fizeram-me sentir pior do que qualquer repreensão.
Ela passara toda a manhã a pensar que tinha feito alguma coisa errada.
E eu sabia que a culpa era apenas minha.
Contei-lhe então, de forma resumida, a aventura do dia anterior com o Manel.
As duas raparigas.
A conversa.
A minha irritação sem sentido.
Ela ouviu tudo sem interromper.
Quando acabei, começou a rir.
— Então foi por isso?
— Foi.
Continuava a rir.
— Os rapazes são mesmo complicados.
— Nós?
— Sim.
Olhou para mim com ternura.
— Acham sempre que têm de provar qualquer coisa.
Fiquei a pensar na frase.
Talvez tivesse razão.
Talvez eu estivesse apenas irritado por não ser como o Manel.
Ou talvez estivesse irritado por perceber que não queria ser.
A conversa voltou a ganhar a naturalidade de sempre.
E senti um enorme alívio.
Era como se a manhã nunca tivesse existido.
Depois de almoço passei parte da tarde a ler o dicionário.
Fazia-o muitas vezes.
Gostava de descobrir palavras novas ao acaso.
Era uma forma estranha de viajar sem sair do lugar.
Perto das cinco horas saí para o Porto.
Passei primeiro pela tipografia para tratar dos autocolantes do DIFI.
Depois segui para o emprego da minha irmã.
A Rita recebeu-me com o sorriso tranquilo de sempre.
Conversámos alguns minutos.
Nada de especial.
Mas bastava ouvi-la falar para sentir aquela curiosidade regressar.
Pouco depois apareceu o senhor Narciso.
— António, vem comigo.
Olhei para ele, sem perceber.
— Vou à fábrica. Se quiseres, dou-te boleia.
Aceitei.
Entrar naquele automóvel pareceu-me uma pequena aventura.
Durante o percurso falou-me do trabalho, dos projectos que tinha e fez-me perguntas sobre a escola e o Karaté.
Gostava da maneira como falava comigo.
Nunca como se fosse um adolescente.
Quando regressamos ao Porto, despedi-me e segui depois para a Academia.
O treino correu mal.
Logo nos primeiros exercícios senti uma dor forte na perna esquerda.
Insisti.
Foi pior.
Quando terminou, caminhar tornou-se um verdadeiro esforço.
Cada passo custava.
Da paragem até casa, um percurso que normalmente fazia em poucos minutos, pareceu interminável.
Quando finalmente entrei, sentei-me imediatamente.
O meu pai ainda não tinha chegado.
Esperava que, quando viesse, me pudesse massajar a perna, como tantas vezes fazia depois dos treinos mais duros.
Enquanto esperava, lembrei-me da manhã.
Da cara preocupada da Dila.
Percebi então uma coisa simples.
Às vezes julgamos que escondemos apenas os nossos problemas.
Mas acabamos por oferecê-los às pessoas de quem mais gostamos.
E elas carregam-nos sem sequer saberem porquê.
Prometi a mim próprio que tentaria não voltar a fazê-lo.
Não porque fosse fácil.
Mas porque o sorriso dela valia muito mais do que qualquer mau humor meu.
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