Aprender a Crescer Entre Perguntas e Sombras
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Segunda-feira, 25 de Abril de 1977
O dia amanheceu feriado.
Fazia precisamente três anos que a Revolução mudara o país.
As ruas tinham um movimento diferente. Havia bandeiras, música e actividades espalhadas pela vila de S. Pedro. Para muita gente era um dia de festa. Para mim era, acima de tudo, um dia sem aulas.
Levantei-me sem pressa, tomei o pequeno-almoço, lavei a cabeça e, ainda durante a manhã, apareceu o Manel.
Sentámo-nos a conversar.
Falámos de tudo um pouco, mas, inevitavelmente, a conversa acabou por regressar às raparigas.
Nas últimas semanas esse assunto surgia cada vez mais vezes entre nós.
Talvez porque estivéssemos a mudar.
Talvez porque começássemos finalmente a olhar para elas não apenas como colegas de escola, mas como um mistério que nos intrigava.
Mesmo assim, enquanto o Manel falava, a minha cabeça desviava-se naturalmente para a Dila.
Naquela manhã, pela primeira vez em vários dias, não a veria na paragem.
Estranhei essa ausência.
Só então percebi até que ponto aqueles encontros se tinham tornado parte da minha rotina.
Depois de almoço resolvemos dar um passeio.
As ruas estavam cheias de gente.
Encontrámos amigos, vimos miudos a brincar, famílias inteiras a passear e muita animação por causa das comemorações do 25 de Abril.
Acabámos por ir assistir a umas provas desportivas organizadas para celebrar o aniversário da Revolução.
Ficámos pouco tempo.
Nem eu nem o Manuel encontrámos grande interesse naquilo.
Foi então que reparámos em duas raparigas que caminhavam alguns metros à nossa frente.
O Manel deu-me uma cotovelada.
— Vamos atrás delas.
Ri-me.
— Para quê?
— Para as conhecer.
Seguimo-las pela rua, fingindo uma naturalidade que certamente não enganava ninguém.
De vez em quando elas olhavam discretamente para trás.
Nós fingíamos olhar para montras.
O Manel divertia-se.
Eu também.
Mas, ao contrário dele, sentia-me deslocado naquela pequena aventura.
Enquanto caminhava atrás daquelas duas desconhecidas, ocorreu-me um pensamento estranho.
Se fosse a Dila a ver-me ali, o que pensaria?
Sorri de mim próprio.
Era uma pergunta absurda.
Ela nem sequer estava presente.
Mesmo assim não consegui afastá-la da cabeça.
Continuámos a segui-las durante bastante tempo.
Já perto das oito horas, o Manel ganhou coragem.
Acelerou o passo e dirigiu-se a uma delas.
Vi-os começar a conversar.
Ela respondeu-lhe com um sorriso.
Fiquei alguns metros mais atrás.
Não sabia o que fazer.
Não me apetecia aproximar.
Nem fugir.
Limitava-me a observar.
Ao fim de alguns minutos o Manel regressou triunfante.
Trazia aquele sorriso satisfeito de quem acabara de vencer uma aposta.
— Afinal era mais fácil do que parecia.
Sorri, mas sem grande convicção.
Começámos o caminho de regresso.
Ele falava sem parar.
Eu respondia apenas com monossílabos.
— Então? Não dizes nada?
Encolhi os ombros.
— Não sei...
Na verdade sabia.
Sentia-me frustrado.
Não por ele ter conseguido falar com a rapariga.
Mas porque percebi que aquilo não era para mim.
Podia achar uma rapariga bonita.
Podia até sentir curiosidade.
Mas aproximar-me de uma desconhecida apenas porque era bonita parecia-me vazio.
Sem dar por isso, comecei a comparar.
As conversas com a Dila nunca tinham começado assim.
Tinham crescido devagar.
Entre viagens de trólei.
Furos.
Caminhadas.
Silêncios.
Talvez por isso me parecessem verdadeiras.
Quando chegámos perto de casa, deixei escapar apenas uma palavra.
— Raios... - soltei como um grito de frustração
O Manuel olhou para mim e desatou a rir.
— Ainda aprendes.
Sorri.
Talvez aprendesse.
Mas suspeitava que nunca seria daquela maneira.
Jantei em casa e sentei-me diante da televisão.
As imagens sucediam-se no ecrã sem que lhes prestasse grande atenção.
Continuava a pensar na tarde.
Pela primeira vez senti que havia qualquer coisa dentro de mim que não conseguia explicar.
A Rita continuava a despertar-me uma curiosidade quase irresistível.
A Dila continuava a ser a pessoa de quem mais sentia falta quando não estava presente.
E, no entanto, nenhuma daquelas duas realidades anulava a outra.
Era como se estivesse a descobrir que crescer não significava encontrar respostas.
Significava aprender a viver com perguntas.
Antes de me deitar pensei que, no dia seguinte, voltaria finalmente a encontrar a Dila.
Sorri sem querer.
Percebi então porque a pequena aventura daquela tarde me deixara um sabor tão estranho.
Passei horas a seguir duas raparigas desconhecidas.
Mas a única pessoa cuja ausência verdadeiramente sentira durante todo o dia fora aquela que nem sequer estivera presente.
E isso dizia muito mais sobre mim do que o desabafo irritado com que terminara a tarde.
Raios.
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