Um domingo feito de coisas pequenas
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Domingo, 24 de Abril de 1977
Os domingos tinham um ritmo próprio.
Acordei tarde, como quase sempre acontecia quando não havia escola nem compromissos marcados para a manhã. Fiquei ainda alguns minutos deitado, ouvindo os ruídos da casa. Alguém arrumava loiça na cozinha. A rádio tocava baixinho numa divisão ao lado. Lá fora, a rua acordava sem pressa.
Levantei-me finalmente.
Tomei o pequeno-almoço enquanto folheava o jornal Comércio do Porto Passei os olhos pelas notícias, mas nenhuma me prendeu verdadeiramente. A política continuava cheia de promessas e de discussões que eu ainda sentia distantes. O meu mundo, naquele momento, era muito mais pequeno. Cabia entre a paragem do trólei, os liceus, o DIFI, a Academia... e uma ou duas pessoas que ocupavam quase todos os meus pensamentos.
Quando acabei o jornal, fui buscar um pequeno apontamento onde copiara o alfabeto grego.
Gostava daquelas letras estranhas. Pareciam pertencer a outro tempo, como se cada uma escondesse uma história muito mais antiga do que eu era capaz de imaginar.
Repeti algumas palavras em voz baixa.
Alfa.
Beta.
Gama.
Delta.
Sorri ao chegar ao delta.
Lembrei-me, sem querer, da Dila.
Era curioso como qualquer coisa acabava por me levar até ela.
Fechei o caderno.
No dia seguinte voltaríamos a encontrar-nos na paragem.
Bastava esse pensamento para o domingo parecer mais curto.
Depois de almoço sentei-me um pouco diante da televisão.
Não prestava grande atenção ao programa.
De vez em quando olhava pela janela.
O céu estava limpo e apetecia estar na rua.
Pouco depois começaram a chegar os colegas.
Saímos imediatamente com a bola debaixo do braço.
Durante toda a tarde jogámos sem grandes preocupações. Escolhíamos as equipas como sempre, discutíamos se a bola tinha entrado ou não, inventávamos regras quando nos dava jeito e recomeçávamos a rir poucos segundos depois de cada discussão.
Naquele campo improvisado não existiam problemas com o CRM.
Não existia o DIFI.
Não existiam reuniões.
Nem preocupações.
Só existia o jogo.
Corri mais do que imaginava.
O corpo acabava por libertar uma tensão que eu nem sabia que trazia comigo.
Ao fim do segundo jogo estávamos todos cansados.
Sentámo-nos algum tempo na relva.
Ninguém dizia grande coisa.
Cada um recuperava o fôlego à sua maneira.
Um dos colegas disse de repente:
— Amanhã já há aulas outra vez.
— Ainda bem — respondi sem pensar.
Olharam todos para mim.
Um deles começou imediatamente a rir.
— Ainda bem?
— Tu deves ser o único rapaz deste planeta contente por voltar às aulas.
Sorri.
Não podia explicar-lhes que não eram propriamente as aulas que me alegravam.
Acabei por encolher os ombros.
— Em casa também já estava farto.
Aceitaram a explicação sem insistirem.
Mas eu sabia a verdadeira resposta.
Amanhã voltaria a vê-la.
Era apenas isso.
Quando os meus colegas se foram embora, a tarde pareceu terminar de repente.
Regressei a casa cansado, mas bem-disposto.
Jantei com a família e depois sentei-me um pouco diante da televisão.
Enquanto as imagens passavam no ecrã, pensei na semana que começaria no dia seguinte.
Não esperava que acontecesse nada de extraordinário.
Na verdade, começava a perceber que a felicidade raramente aparecia nos grandes acontecimentos.
Vivia escondida nas pequenas repetições.
Na espera da paragem.
No zumbido do trólei.
Num sorriso que já conhecia de cor.
Numa conversa interrompida pelo toque para as aulas.
Ou mesmo num silêncio partilhado durante uma viagem de regresso.
Sorri ao pensar nisso.
Se alguém me perguntasse o que fizera naquele domingo, responderia provavelmente que lera o jornal, estudara um pouco de alfabeto grego, jogara à bola e vira televisão.
Seria verdade.
Mas não seria toda a verdade.
Porque, durante todo o dia, houve uma pessoa que nunca esteve realmente ausente.
Mesmo sem a ver, a Dila continuava a caminhar ao lado dos meus pensamentos.
E começava a perceber que era precisamente isso que a tornava diferente de todas as outras.
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