A Geometria dos Caminhos Silenciosos
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Sábado, 23 de Abril de 1977
Este sábado acordei mais tarde do que era costume.
Quando cheguei à paragem, a Dila já lá estava.
Assim que me viu, levou as mãos à cintura, fingindo um ar zangado.
— Muito bonito.
Sorri antes mesmo de chegar ao pé dela.
— Desculpa.
— Estive quase a ir-me embora.
— Não foste.
— Porque achei que tinhas adormecido.
Ri-me.
— Acertaste.
Ela abanou a cabeça, mas o sorriso denunciava que já me perdoara.
— Um dia deixo-te mesmo para trás.
— Não deixas nada.
— Tens assim tanta certeza?
Olhei para ela.
— Tenho.
Ela desviou o olhar, escondendo um sorriso.
— Convencido...
O trólei chegou logo de seguida.
Entrámos e sentámo-nos juntos.
As manhãs de sábado tinham sempre um ritmo diferente. Havia menos passageiros, menos pressa e uma estranha sensação de liberdade por sabermos que as aulas terminariam ao meio-dia.
— Hoje tens algum furo? — perguntou ela.
— Dois.
— Que sorte.
— Nem por isso.
Olhou para mim.
— Vais fazer o quê?
Hesitei apenas um instante.
— Talvez vá ao emprego da minha irmã.
Ela sorriu de lado.
— Deves ter algum interesse por lá.
Não era uma pergunta.
Era uma constatação.
Olhei para ela, surpreendido.
— É verdade... - hesitei se dizia ou não a verdade, mas a queria magoar e por isso continuei - vou para lá ouvir música sentado numa poltrona. Pelo menos lá ninguém me manda sair.
Ela riu-se.
— Logo vi que tinhas de sair beneficiado de algum jeito.
— Tens razão.
— Eu sei.
A conversa terminou ali.
Mas aquelas palavras acompanharam-me até ao liceu.
Percebi, pela primeira vez, que entre nós existia uma confiança rara.
Ela aceitou o que lhe dissera sem questionar.
E, em vez de se afastar, continuava ali.
Ao meu lado.
Durante o furo fui, com um colega, até ao local onde trabalhava a minha irmã.
A Rita estava a arrumar alguns papéis quando entrei.
Cumprimentou-me com o sorriso tranquilo de sempre.
Conversámos apenas alguns minutos.
O senhor Narciso apareceu entretanto e meteu conversa connosco.
Falava com aquela boa disposição habitual, como se tivesse sempre tempo para toda a gente.
Olhei discretamente para o relógio.
Tinha de voltar para o liceu.
Despedi-me.
Quando saí, dei comigo a sorrir.
Lembrei-me da Dila.
"Logo vi que tinhas de sair beneficiado de algum jeito."
Sorri ainda mais.
Ela conhecia-me melhor do que eu próprio imaginava.
Ao meio-dia fui esperá-la.
Mal me viu, levantou uma sobrancelha.
— Então?
— Então o quê?
— Não te faças desentendido.
Ri-me.
— Fui lá.
— E?
Começámos a caminhar.
Resolvi provocar um pouco.
— Quase adormeci a ouvir música.
— Só fizeste isso? Ouvir música?
— Só.
Olhou para mim desconfiada.
— Estás a esconder qualquer coisa.
— Não estou.
Ficou alguns segundos em silêncio.
Depois começou a rir.
— Vou fazer de conta que acredito.
Senti-me mal por esta mentira que não o era na minha cabeça.
Não sabia o significado da Rita na minha cabeça, mas sabia a importância que a Dila tem na minha vida.
Era curioso.
Nunca tinha sentido a Dila ciumenta alguma vez. Porém agora...
Depois de almoço vi um pouco de televisão.
Pouco depois começaram a chegar os colegas do grupo.
O meu pai juntou-se a nós.
Seguimos todos para o centro.
Durante o caminho quase ninguém falava.
Cada um levava consigo a tensão acumulada das últimas semanas.
As discussões com o CRM tinham desgastado toda a gente.
Confesso que também eu saí de casa com vontade de exigir respostas.
Talvez até de levantar a voz.
Mas, quando finalmente entrámos e começámos a conversar, aconteceu precisamente o contrário.
As palavras mais duras ficaram por dizer.
Cada lado expôs as suas razões.
Houve momentos de exaltação.
Algumas interrupções.
Alguns silêncios pesados.
Mas ninguém perdeu verdadeiramente o controlo.
No fim ficou marcada uma nova reunião para a quinta-feira seguinte.
Saímos dali sem uma solução definitiva.
Mas, pelo menos, saímos sem termos destruído aquilo que ainda podia ser recuperado.
Enquanto regressávamos, o meu pai caminhava ao meu lado.
— Às vezes — disse ele — discutir não resolve logo os problemas.
Olhei para ele.
— Mas evita que fiquem piores.
Ele sorriu.
— Exactamente.
Guardei aquelas palavras.
Quando os colegas se despediram, fiquei sozinho em casa.
Não me apetecia comer.
Nem lanchar.
Nem jantar.
O cansaço era maior do que a fome.
Sentei-me diante da televisão, mas quase não prestei atenção ao que passava.
A minha cabeça estava dividida entre vários mundos.
O DIFI.
A Rita.
A Dila.
As aulas.
As férias que tinham terminado.
Era estranho.
Há apenas alguns meses tudo parecia muito mais simples.
Agora sentia que a vida começava a abrir-se em vários caminhos ao mesmo tempo.
E eu ainda não sabia qual deles acabaria por seguir.
Antes de me deitar lembrei-me de uma frase da Dila, dita nessa manhã com a maior naturalidade.
"Vou fazer de conta que acredito."
Sorri no escuro. No entanto fiquei apreensivo.
Talvez ela não imaginasse que, naquele momento, a pessoa que mais reparava em mim... continuava a ser ela.
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