Entre a inocência e o futuro
← Folha Anterior | Índice | Folha Seguinte →
Sexta-feira, 22 de Abril de 1977
Quando cheguei à paragem, a Dila já lá estava.
Ao ver-me aproximar, sorriu.
— Hoje cheguei primeiro outra vez.
— Estou a perder o jeito.
— Estás.
Esperou um instante.
— Ou então deixas-me ganhar de propósito.
— Nunca.
Ela riu-se.
— Ainda bem. Assim sabe melhor.
O trólei apareceu poucos minutos depois.
Entrámos e encontrámos dois lugares juntos.
A manhã estava luminosa e, pelas janelas, o caminho parecia diferente dos dias de Inverno. As árvores começavam finalmente a vestir-se de verde e as pessoas caminhavam mais devagar, como se o bom tempo lhes retirasse um pouco da pressa.
Durante algum tempo falámos apenas das aulas.
Depois o silêncio voltou.
Já não nos surpreendia.
Pelo contrário.
Começava a ser uma parte importante das nossas viagens.
Foi a Dila quem o interrompeu.
— Sabes uma coisa?
— O quê?
— Tenho a impressão de que este ano passou muito depressa.
— Ainda falta muito para acabar.
— Eu sei... mas parece que ainda ontem fazia frio e agora já estamos quase no fim de Abril.
Olhei pela janela.
Uma mulher atravessava a rua empurrando um carrinho de bebé.
Sem querer acompanhei-a com o olhar.
A Dila reparou.
Olhou também.
Nenhum de nós disse nada.
Mas ambos nos lembrámos, certamente, da história inventada pelo Manel semanas antes.
Ela acabou por falar primeiro.
— Ainda pensas naquilo?
Sorri.
— Às vezes.
— Eu também.
Baixou um pouco a voz.
— Foi uma parvoíce... mas fez-me pensar.
— A mim também.
Ficámos novamente calados.
A mulher desapareceu na esquina.
O carrinho desapareceu com ela.
Mas o pensamento ficou.
Aquela falsa notícia passara.
No entanto, abrira uma porta que já não conseguíamos fechar completamente.
Começávamos a olhar para o mundo dos adultos não como uma coisa distante, mas como qualquer coisa que, um dia, também nos iria pertencer.
Ainda parecia muito longe.
Mas já não parecia impossível.
As aulas passaram sem sobressaltos.
Ao fim da manhã fui esperá-la.
Saiu do liceu rodeada pelas colegas.
Quando me viu, despediu-se delas e veio direita a mim.
— Vamos?
— Vamos.
Durante o caminho falou-me de um livro que andava a ler.
Contava-o com tanto entusiasmo que eu quase conseguia ver as personagens através das palavras dela.
Gostava de a ouvir falar assim.
Quando alguma coisa a apaixonava, os olhos pareciam iluminar-se.
No trólei regressámos quase sempre em silêncio.
Mas, perto da nossa paragem, ela perguntou inesperadamente:
— Achas que vamos mudar muito?
Olhei para ela.
— Não sei.
Sorri.
— Espero que não.
Ela também sorriu.
— Eu também.
Não explicámos porquê.
Talvez porque ambos tivéssemos receio de que crescer significasse deixar para trás aqueles dias simples.
Cheguei a casa e almocei.
Como ainda tinha fome, acabei por repetir o prato, para grande satisfação da minha mãe, que comentou que finalmente começava a comer como um rapaz da minha idade.
Ri-me.
Depois de almoço deitei-me apenas para descansar um pouco.
Acordei já perto das cinco.
Preparei o saco da ginástica e saí para o Porto.
Antes da Academia passei, como já começava a ser hábito, pelo emprego da minha irmã.
A Rita estava a atender um cliente.
Esperei.
Quando ficou livre, aproximou-se.
— Boa tarde.
— Boa tarde.
— Como estás?
— Bem.
Sorriu.
— Ainda bem.
Era uma conversa simples.
Educada.
Mas eu continuava a sentir um nervosismo estranho sempre que estava perto dela.
Pouco depois apareceu o senhor Narciso, o patrão.
Recebeu-me com a simpatia habitual.
Conversámos alguns minutos.
Tinha sempre uma palavra amável, uma pergunta sobre a escola ou sobre o Karaté.
Gostava dele.
Transmitia uma serenidade que inspirava confiança.
Olhei uma última vez para a Rita antes de me despedir.
Ela sorriu e acenou ligeiramente com a cabeça.
Saí.
Durante o caminho para a Academia dei por mim a pensar numa diferença que começava a tornar-se evidente.
Quando deixava a Dila, ficava sempre com vontade de prolongar a conversa.
Quando deixava a Rita, ficava sobretudo a pensar nela.
Eram sentimentos diferentes.
Um construía-se na presença.
O outro alimentava-se da distância e da imaginação.
Não sabia como explicá-lo.
Creio que percebo que começava a descobrir que nem todas as formas de gostar nascem da mesma maneira.
O treino ajudou-me a esquecer tudo durante algum tempo.
Cada movimento exigia atenção.
Cada exercício obrigava-me a estar completamente presente.
Quando terminou, sentia o corpo cansado, mas a cabeça mais leve.
Regressei a casa já de noite.
Jantei com a família e ainda vi um pouco de televisão.
Antes de me deitar, lembrei-me da pergunta da Dila.
"Achas que vamos mudar muito?"
Talvez mudássemos.
Na verdade, já estávamos a mudar.
Muito devagar.
Quase sem dar por isso.
Mas havia uma coisa que eu desejava conservar.
A alegria simples de esperar por ela todas as manhãs.
Porque começava a perceber que era essa pequena rotina, repetida dia após dia, que dava sentido aos meus dias.
E havia mudanças que eu aceitava sem medo.
Desde que ela continuasse a fazer parte delas.
Comentários
Enviar um comentário