Quando as palavras aprendem a calar-se
Quinta-feira, 21 de Abril de 1977
Encontrei a Dila na paragem à mesma hora de sempre.
Já me esperava.
Sorriu quando me viu aproximar.
— Hoje não chegaste atrasado.
— Estou a criar fama.
— Ainda vais a tempo de a perder.
Rimo-nos os dois.
Entrámos no trólei e conseguimos sentar-nos juntos, perto da janela.
Durante os primeiros minutos falámos do costume. Um teste que se aproximava, um professor que insistia em fazer perguntas impossíveis, um colega que conseguira provocar uma gargalhada geral na aula do dia anterior.
Mas, pouco a pouco, a conversa foi esmorecendo.
Não aconteceu por falta de vontade.
Simplesmente aconteceu.
Olhei pela janela.
Ela fazia o mesmo.
O zumbido do trólei ocupava o lugar das palavras.
Passado algum tempo, a Dila perguntou baixinho:
— Reparaste que agora falamos menos?
Sorri.
Também eu tinha dado por isso.
— Já.
Ela ficou alguns segundos a olhar para as mãos.
— Achas que isso é mau?
Demorei um instante a responder.
— Não sei...
Olhei para ela.
— Antes tínhamos sempre qualquer coisa para contar porque tudo era novidade.
Ela assentiu.
— Agora parece que já sabemos quase tudo um do outro.
— Ou então...
Parei a meio da frase.
— Ou então?
— Já não sentimos obrigação de estar sempre a falar.
Ela pensou um pouco.
Depois sorriu.
— Também acho.
Ficámos novamente em silêncio.
Mas, dessa vez, o silêncio parecia ter encontrado o seu significado.
Não era distância.
Era confiança.
Quando o trólei parou, levantámo-nos ao mesmo tempo.
Ao sairmos, ela disse apenas:
— Afinal este silêncio não me incomoda.
Olhei para ela.
— A mim também não.
As aulas decorreram sem grande história.
Ao intervalo estivemos juntos apenas alguns minutos.
Nem sequer falámos muito.
Sentámo-nos num banco do recreio.
Ela folheava distraidamente um caderno.
Eu observava o movimento dos alunos.
À nossa volta havia gritos, risos, corridas.
Nós permanecíamos ali, tranquilos, como se tivéssemos encontrado um pequeno espaço onde o tempo corria mais devagar.
Pouco antes de tocar, ela fechou o caderno.
— Vou andando.
— Até logo.
Sorriu.
— Até logo.
Vi-a afastar-se entre os outros alunos.
Já não precisava de a seguir com os olhos durante muito tempo.
Sabia exactamente onde desapareceria.
Conhecia-lhe os caminhos quase tão bem como conhecia os meus.
Nesse dia, antes de ir esperá-la, almocei no liceu com o Manel.
A conversa acabou, inevitavelmente, por regressar aos problemas do DIFI.
Falávamos do inventário do material, das reuniões adiadas e da tensão crescente com o CRM.
O Manel continuava optimista.
Eu já não tanto.
Quando terminámos a refeição fui esperá-la.
Assim que apareceu percebeu que eu vinha mais calado.
— Que aconteceu?
— Nada de especial.
Ela olhou para mim de lado.
— Foi o DIFI outra vez.
Sorri.
Conhecia-me demasiado bem.
— Foi.
Começámos a caminhar.
Ela não fez perguntas.
Apenas ficou ao meu lado.
Ao fim de alguns minutos disse:
— Sabes uma coisa?
— O quê?
— Às vezes não podemos resolver os problemas dos outros.
Olhei para ela.
— Mas podemos fazer-lhes companhia.
A frase ficou comigo.
Não respondeu.
Nem precisava.
Naquele momento estava precisamente a fazer isso.
Sem discursos.
Sem conselhos.
Apenas caminhando ao meu lado.
Depois de almoço escrevi cuidadosamente uma lista com todo o material do grupo.
Era preciso entregá-la ao CRM.
Enquanto alinhava os nomes dos objectos no papel, pensava como era estranho gastar tantas horas a defender uma sala, uns arquivos, umas pastas.
Meses antes aquilo parecia o centro do meu mundo.
Agora começava a perceber que existiam coisas muito mais difíceis de perder.
Quando terminei, deitei-me um pouco.
A ideia era descansar apenas alguns minutos.
Acordei já perto das sete.
Levantei-me estremunhado, vi um pouco de televisão, jantei e preparei-me para sair.
O meu pai esperava-me.
Fomos juntos a casa do Mazola.
A conversa começou educadamente.
Cada um expôs a sua versão dos acontecimentos.
Houve momentos de maior tensão.
Algumas palavras ditas num tom mais firme.
Mas, ao contrário do que muitos esperavam, nada descambou.
No fim, regressámos a casa sem que verdadeiramente se tivesse resolvido alguma coisa.
Às vezes as discussões acabam exactamente como começam.
Com as mesmas dúvidas.
Já em casa, encontrei a minha irmã Fernanda acordada.
Sentei-me um pouco ao pé dela.
Perguntei-lhe, com cuidado, pelos sonhos que tanto a inquietavam.
Ao princípio respondeu com frases soltas.
Depois foi falando mais.
Não contou tudo.
Mas contou o suficiente para eu perceber que as noites apenas davam voz às preocupações que ela escondia durante o dia.
Enquanto a ouvia lembrei-me da conversa da manhã com a Dila.
Nem sempre é preciso falar muito.
Às vezes basta haver alguém disposto a ouvir.
Antes de adormecer, dei comigo a pensar numa coisa curiosa.
No diário talvez escrevesse apenas que as nossas conversas já não tinham o entusiasmo de outrora.
Mas essa frase seria injusta.
O entusiasmo não desaparecera.
Tinha apenas mudado de forma.
No princípio apaixonávamo-nos pelas descobertas.
Agora começávamos a gostar também daquilo que já conhecíamos.
As conversas eram menos apressadas.
Os silêncios mais longos.
Os olhares mais tranquilos.
Talvez fosse isso que acontecia quando duas pessoas deixavam de se esforçar para parecer interessantes.
Passavam simplesmente a sentir-se bem uma com a outra.
E, sem darmos por isso, essa mudança dizia muito mais do que todas as palavras que deixáramos de dizer.
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