As palavras que escondem outras

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Quarta-feira, 20 de Abril de 1977

A manhã começou como tantas outras.

Quando cheguei à paragem, a Dila já lá estava.

Tinha os livros apertados contra o peito e desenhava distraidamente pequenos círculos no passeio com a ponta do sapato.

Levantou os olhos assim que me ouviu aproximar.

— Hoje fui eu que cheguei primeiro.

— Vejo que sim.

— Nem cinco minutos.

— Então ganhaste.

Sorriu com aquele ar satisfeito que só aparecia quando conseguia vencer-me em pequenas coisas sem importância.

Entrámos no trólei ainda a brincar.

Sentámo-nos lado a lado.

Durante alguns minutos falámos das aulas que nos esperavam, dos testes que se aproximavam e de um professor que conseguia transformar qualquer matéria numa coisa infinitamente mais complicada do que realmente era.

Depois a conversa abrandou.

Ela olhava pela janela.

Eu olhava para ela.

Foi então que perguntou, sem desviar os olhos da rua:

— Achas que as pessoas mudam muito de um ano para o outro?

A pergunta apanhou-me desprevenido.

— Não sei...

Virou finalmente a cabeça para mim.

— Eu acho que sim.

Esperei.

— Há coisas que no ano passado nem me passavam pela cabeça.

Sorri.

— Como o quê?

Encolheu os ombros.

— Não sei explicar.

Fez uma pausa.

— Parece que agora olho para as pessoas de maneira diferente.

A frase ficou a ecoar dentro de mim.

Era exactamente o que também me acontecia.

Mas não tive coragem de lho dizer.

Limitei-me a responder:

— Talvez seja por estarmos a crescer.

Ela sorriu muito ligeiramente.

— Talvez.

O trólei continuou o seu caminho, embalando-nos naquele silêncio tranquilo que já fazia parte das nossas manhãs.

As aulas decorreram sem sobressaltos.

Nos intervalos encontrávamo-nos quase sempre.

Às vezes bastavam cinco minutos.

Outras vezes apenas um olhar trocado do outro lado do recreio.

Era curioso como esses pequenos momentos conseguiam dar outro ritmo ao dia.

Ao fim da manhã fui esperá-la.

Saiu do liceu acompanhada por duas colegas.

Despediu-se delas e veio ao meu encontro.

— Esperaste muito?

— Nem por isso.

Começámos a caminhar.

Ela contou-me um episódio divertido passado numa aula.

Ri-me mais do que talvez tivesse graça.

Não pela história.

Mas porque gostava de a ouvir rir enquanto a contava.

Durante a viagem de regresso falámos muito pouco.

Já não me incomodava.

Pelo contrário.

Começava a perceber que o silêncio também podia aproximar duas pessoas.

Por vezes olhávamos pela mesma janela ao mesmo tempo, sem dizer uma palavra.

Era suficiente.

Quando nos despedimos, ela ficou ainda alguns segundos parada.

— Até amanhã.

— Até amanhã.

Só depois seguimos cada um para seu lado.

Almocei e preparava-me para me deitar um pouco quando bateram à porta.

Era um colega do grupo.

Entrou com o entusiasmo habitual e acabou por passar toda a tarde comigo.

Falámos do DIFI, dos problemas que pareciam não ter fim e dos projectos que insistíamos em manter vivos apesar de tudo.

A certa altura percebi que respondia mais por educação do que por verdadeiro interesse.

A minha cabeça regressava constantemente às conversas da manhã.

Àquela pergunta inesperada.

"Achas que as pessoas mudam muito de um ano para o outro?"

Talvez a Dila tivesse razão.

Talvez estivéssemos mesmo a mudar.

Sem darmos conta.

Pouco depois das seis horas o meu colega foi embora.

Lanchei e, quase de seguida, apareceu o Manel.

Com ele as conversas eram diferentes.

Mais rápidas.

Mais ruidosas.

Falámos de futebol, da escola e das pequenas histórias que iam acontecendo entre os nossos amigos.

Quando se despediu, a casa voltou a ficar em silêncio.

Sentei-me na sala.

Na televisão transmitiam um jogo de futebol.

Nem sequer torcia por nenhuma das equipas, mas deixei-me ficar.

A meio do jogo o Manel voltou a aparecer.

Entrou a comentar um lance que nem eu tinha visto com atenção.

Ficou mais algum tempo.

Quando percebeu que o jogo ainda demoraria, despediu-se novamente.

— Amanhã falamos.

— Até amanhã.

Continuei diante da televisão.

Depois do futebol começou um filme.

Foi já durante o filme que uma das minhas irmãs mais novas entrou na sala.

— Sabes que a Fernanda, quando dorme, fala?

Olhei para ela.

— Fala?

— E ri-se... depois começa a chorar... e às vezes até dá ordens.

Fiquei surpreendido.

Mais tarde perguntei melhor o que acontecia.

Enquanto ouvia a descrição daqueles sonhos inquietos, lembrei-me de como a minha irmã andava diferente havia algum tempo.

Mais calada.

Mais preocupada.

Pensei que talvez os sonhos fossem apenas aquilo que ela não conseguia dizer acordada.

Não me atrevi a fazer grandes interpretações.

Mas custou-me imaginar que alguém pudesse sofrer tanto até durante o sono.

Quando me deitei, a televisão já se apagara e a casa mergulhara no silêncio.

Antes de fechar os olhos voltei a lembrar-me da conversa com a Dila.

"Agora olho para as pessoas de maneira diferente."

Talvez fosse isso.

Não era apenas ela quem estava a mudar.

Eu também começava a olhar para o mundo com outros olhos.

Já não via apenas colegas, professores ou desconhecidos.

Começava a adivinhar histórias escondidas por detrás de cada rosto.

Preocupações.

Sonhos.

Medos.

Como os da minha irmã.

Como, talvez, os da própria Dila.

E percebi que crescer podia ser exactamente isso.

Descobrir que cada pessoa transporta um mundo invisível que quase nunca cabe nas palavras.


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