Entre dois olhares

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Terça-feira, 19 de Abril de 1977

Encontrei a Dila na paragem ainda antes de o trólei aparecer.

Trazia o cabelo preso de maneira diferente e só reparei nisso quando sorriu.

— Estás a olhar para quê? — perguntou, divertida.

Desviei os olhos.

— Para nada.

— Mentiroso.

Ri-me.

— Mudaste qualquer coisa.

Levou a mão ao cabelo.

— Achas?

— Acho.

Ficou alguns segundos à espera.

— E então?

— Fica-te bem.

Sorriu com uma naturalidade que me desarmou.

— Obrigada.

Subimos para o trólei.

Nesse dia a minha irmã acompanhou-nos durante a viagem. A conversa tornou-se mais leve, salpicada pelas brincadeiras dela, que parecia divertir-se a provocar-nos.

— Vocês quando vão sozinhos falam muito mais.

Olhei imediatamente para a Dila.

Ela baixou os olhos, sorrindo.

— Não ligues — disse-me baixinho.

A minha irmã riu-se.

— Eu não disse nada...

Falámos de assuntos sem importância até chegarmos ao Bonfim, mas bastava um olhar trocado para perceber que os momentos em que estávamos apenas os dois tinham um sabor diferente.

A Dila ficou a ver o trólei a afastar-se.

— A tua irmã é impossível.

— Já estás habituada.

— Acho que sim.

Ficámos uns segundos em silêncio.

Depois ela perguntou:

— Hoje tens muitos furos?

— Dois.

— Eu também tenho um.

— Pena não serem à mesma hora.

— Um dia ainda hão-de ser.

Disse-o como quem fala de uma pequena coincidência.

Mas ambos sabíamos que gostaríamos que acontecesse.

Durante um dos meus furos fui tratar de um assunto do DIFI.

Passei pela tipografia para levantar as gravuras e os originais dos autocolantes. O trabalho anterior não ficara como devia e tive de os levar a outra tipografia, na esperança de que ali o fizessem melhor.

Enquanto caminhava pelas ruas do Porto, dei por mim a pensar como aqueles assuntos começavam a perder importância.

Meses antes teria vivido aquela manhã completamente absorvido pelo grupo.

Agora despachava tudo o mais depressa possível.

Sem o admitir a ninguém, queria apenas regressar ao liceu.

Queria que as aulas terminassem.

Queria voltar a encontrá-la.

Quando regressei ainda fui a tempo da aula seguinte.

Pela janela da sala vi alunos atravessarem o recreio.

Procurei-a quase sem pensar.

Não a encontrei.

Sorri de mim próprio.

Era incrível como, em tão pouco tempo, passara a procurá-la em todo o lado.

Ao fim da manhã fui esperá-la.

Assim que me viu, perguntou:

— Correu bem?

— Mais ou menos.

— Outra vez problemas?

— Os do costume.

Ela abanou a cabeça.

— Um dia isso ainda acaba contigo.

— Espero que acabe primeiro.

Ela riu-se.

Depois caminhámos devagar até à paragem.

No trólei voltámos a sentar-nos lado a lado.

Durante alguns minutos observámos a cidade.

Foi ela quem quebrou o silêncio.

— Sabes uma coisa?

— Diz.

— Gosto destas viagens.

Olhei para ela.

— Eu também.

— Porque aqui ninguém nos chama.

Sorri.

Era verdade.

Durante aqueles minutos não havia professores, colegas, pais nem obrigações.

Apenas o zumbido do trólei, as ruas a passarem lentamente e a sensação de que o tempo abrandava.

Ela encostou a cabeça ao vidro.

— Às vezes tenho pena que o caminho seja tão curto.

A frase ficou suspensa entre nós.

Não respondi.

Tive receio de que a minha voz dissesse mais do que devia.

Depois de almoço ajeitei o braço do sofá-cama, que andava solto havia dias.

Enquanto apertava os parafusos, pensei como era estranho que as coisas mais simples ocupassem as mãos enquanto a cabeça permanecia noutro lugar.

Mudei de roupa e voltei ao Porto.

Passei novamente pela tipografia, entrei depois numa livraria e comprei um livro.

Gostava daquela sensação de sair de uma livraria com um volume debaixo do braço.

Era como trazer uma viagem ainda por começar.

Antes de seguir para a Academia fui ao emprego da minha irmã.

A Rita estava ao balcão.

Quando me viu entrar, sorriu.

Conversámos durante quase uma hora.

Era bonita.

Falava com segurança.

Tinha uma maneira adulta de olhar para as pessoas que ainda me desconcertava.

Enquanto a ouvia, lembrei-me da conversa da manhã com a Dila.

E, pela primeira vez, não senti necessidade de comparar as duas.

Percebi que ocupavam lugares completamente diferentes dentro de mim.

A Rita representava um mundo novo que despertava a minha curiosidade.

A Dila era o mundo onde eu já vivia.

Era com ela que aprendia a crescer, um dia de cada vez.

Despedi-me da Rita e fui para a Academia.

O treino exigiu-me mais do que o costume.

Talvez porque precisava de cansar o corpo para descansar a cabeça.

Regressei a casa já de noite.

Jantei em silêncio.

Antes de me deitar, dei comigo a pensar que estava a viver uma idade estranha.

Durante anos tudo parecia simples.

Agora começavam a surgir pessoas que despertavam sentimentos diferentes, impossíveis de comparar entre si.

Ainda não sabia dar nome ao que sentia.

Nem precisava.

Bastava-me viver aqueles dias.

Haveria tempo, mais tarde, para compreender aquilo que, naquele momento, apenas começava a nascer.


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