O silêncio também fala
← Folha Anterior | Índice | Folha Seguinte →
Segunda-feira, 18 de Abril de 1977
Acordei mais tarde do que era costume.
Quando olhei para o relógio percebi imediatamente que não havia tempo para tomar o pequeno-almoço. Vesti-me à pressa e saí de casa quase a correr. A única preocupação era chegar à paragem antes de a Dila pensar que eu me esquecera dela.
Por sorte, ainda cheguei primeiro.
Respirei de alívio.
Poucos minutos depois apareceu ao fundo da rua.
Mal me viu, levantou a mão num cumprimento silencioso.
— Bom dia.
— Bom dia.
Olhou para mim de alto a baixo.
— Vieste a correr.
Sorri.
— Nota-se assim tanto?
— Tens o cabelo todo despenteado.
Passei a mão pela cabeça.
— Nem tomei o pequeno-almoço.
Ela fez um ar repreensivo.
— Isso faz mal.
— Mas cheguei a tempo.
Ela abanou a cabeça, vencida por um sorriso.
— És impossível.
Entrámos no trólei.
Os lugares habituais estavam ocupados e ficámos de pé, lado a lado, segurando o mesmo varão.
Durante algum tempo limitámo-nos a olhar a vila de S. Pedro que deslizava para trás das janelas.
- Disseste que tinha uma coisa para me dizer - Desembrulhei finalmente aquele pergunta que me pendurara todo o fim de semana.
Olhou para mim primeiro muito séria e depois sorrindo foi dizendo:
- Estava a ver que te tinhas esquecido.
- Esquecido? Deixaste-me sem falta de ar todo o fim de semana...
- A sério? - pareceu duvidar
- Não imaginas o quanto sofri pela espera do desembrulhar da tua declaração - comecei a dizer
- Não é uma declaração... onde foste buscar essa ideia?
- Foram as tuas palavras que me puseram em sentido... deixou-me ansioso.
- Não tinhas razão para isso... apenas... - vacilou antes de continuar - gostei tanto da tua carta que... a guardo onde não possa nunca desaparecer. - concluiu de forma solene.
- A sério? Gostaste assim tanto? Vou passar a escrever-te todas as semanas... não, todos os dias...
- Lá estás tu a brincar. Não se pode falar a sério contigo...
- Estou a falar a sério - repliquei, continuando - Onde guardas a carta?
Hesitou antes de responder:
- Num lugar onde só eu chego. No mesmo sítio onde guardo a tua foto.
Fiquei calado a tentar imaginar tal sítio. Será que a trazia junto ao coração? Não me cabia perguntar mais nada.
O silêncio instalou-se naturalmente.
Há poucas semanas isso teria parecido estranho.
Agora já não.
Era apenas outra forma de estarmos juntos.
Mesmo assim, dei por mim a reparar que conversávamos menos.
Não porque nos faltassem assuntos.
Talvez porque já não sentíssemos necessidade de preencher todos os instantes com palavras.
A certa altura ela perguntou:
— Em que estás a pensar?
Sorri.
— Nem sei.
Ela olhou para mim desconfiada.
— Sabes, pois.
Olhei pela janela antes de responder.
— Estava a pensar que as férias passaram depressa.
Ela assentiu.
— Também achei.
Fez uma pequena pausa.
— Gostei de voltar às aulas.
— Eu também.
Não falámos da escola.
Nenhum de nós precisava de explicar porquê.
Sabíamos perfeitamente do que estávamos realmente a falar.
À chegada ao liceu caminhámos mais devagar do que era necessário.
O silêncio continuava connosco.
Mas não era um silêncio vazio.
Pelo contrário.
Parecia cheio de pequenas coisas que já não precisavam de ser ditas.
Antes de nos despedirmos, ela olhou para mim.
— Hoje pareces diferente.
— Diferente como?
Encolheu os ombros.
— Mais calado.
Ri-me.
— Talvez esteja só com sono.
Ela pareceu aceitar a explicação.
Mas tive a impressão de que não acreditara completamente.
Conhecia-me demasiado bem.
As aulas passaram sem novidade.
Quando terminaram, fui esperá-la ao lugar do costume.
Veio ao meu encontro sorrindo.
— Já acordaste?
— Acho que sim.
Ela riu-se.
— Ainda bem.
Começámos o caminho para a paragem.
Desta vez a conversa surgiu com mais facilidade.
Falámos de um professor particularmente distraído, de um colega que conseguira adormecer durante a aula e de um livro que ela queria ler quando o encontrasse na biblioteca.
Enquanto a ouvia, percebi que bastava isso para me sentir bem.
Nem sempre era preciso falar de coisas importantes.
As pequenas conversas eram, afinal, as que construíam os dias.
No trólei, ela mostrou-me discretamente o marcador de livros que continuava a usar.
Trazia-o entre as páginas do livro que transportava.
— Continua a portar-se bem.
Sorri.
— Ainda bem.
Ela olhou para mim com um brilho divertido.
— Agora já faz parte do livro.
Sem saber porquê, aquela frase deixou-me estranhamente feliz.
Do nada surgiu a pergunta:
- Disseste que também me irias dizer o que fizeste no furo de sábado. Então o que fizeste?
Por momentos fiquei sem saber o que lhe dizer. Que aproveitei o furo para ir ao trabalho da minha irmã e que conversara com a Rita. O que iria ela pensar disso? Para mim a Rita não tem o significado que ela tem para mim. A Rita é uma rapariga mais velha, deve ter cerca de 25 anos, tem o encanto de uma mulher mais velha. Admiro-a, gosto de olhar para ela e de estar na sua presença. As nossas conversas são adultas. Faz-me sentir outra pessoa. A Dila, pelo seu lado, é a minha outra metade. Sinto-me em paz quando estamos juntos. É a minha melhor amiga e confidente. Existe um sentimento profundo que nos liga. Não vejo o meu futuro sem ela. Por isso tinha de ponderar muito bem na minha resposta.
- Fui ao trabalho da minha irmã - disse - Fica perto do Bolhão. Já ouviste falar na Electro-Povo?
- A sério? É aquela da publicidade "É do povo para servir o povo"? - Disse sorrindo.
- É essa mesmo. - respondi.
Chegados a S. Pedro, despedimo-nos e cada um seguiu para casa.
Cheguei a casa, almocei e deitei-me a ler.
O livro prendeu-me desde as primeiras páginas.
À medida que avançava, esquecia completamente o tempo.
Interrompi a leitura apenas para lanchar.
Depois voltei ao quarto e continuei até fechar a última página, já ao fim da tarde.
Fiquei alguns minutos com o livro fechado sobre o peito.
Gostava sempre daquele instante em que uma história terminava.
Era como despedir-me de pessoas que, durante algumas horas, tinham vivido comigo.
O Manel apareceu pouco depois.
Entrou sem cerimónia.
— Então, acabaste o livro?
Mostrei-lho.
— Mesmo agora.
— Vale a pena?
— Vale.
Sentámo-nos a conversar.
Falámos de livros, da escola e, inevitavelmente, do DIFI.
Os problemas continuavam sem solução.
Mas, curiosamente, já não ocupavam todo o meu pensamento.
Talvez porque existissem agora outras coisas mais fortes.
Outras pessoas.
Outros afectos.
Antes do jantar fui treinar um pouco no quintal.
A minha irmã quis repetir alguns golpes e ensinei-lhe o que conseguia.
O Manel observava, divertindo-se com as nossas tentativas.
Quando entrámos em casa, a televisão já estava ligada.
Sentámo-nos todos na sala.
Nessa noite, antes de adormecer, voltei a pensar na manhã.
A Dila dissera que eu estava mais calado.
Talvez tivesse razão.
Mas não era tristeza.
Era outra coisa.
Começava a descobrir que a verdadeira proximidade nem sempre precisa de muitas palavras.
Há um momento em todas as amizades profundas em que o silêncio deixa de ser um vazio.
Transforma-se numa conversa diferente.
E tive a sensação de que nós estávamos precisamente a chegar a esse lugar.
Sem dar por isso, aprendíamos uma nova maneira de estar juntos.
Talvez mais madura.
Talvez mais difícil de explicar.
Mas certamente mais verdadeira.
Comentários
Enviar um comentário