Fragmentos de um Domingo Suspenso
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Domingo, 17 de Abril de 1977
Acordei sem vontade de me levantar.
O quarto permanecia mergulhado naquele silêncio próprio dos domingos, quando a vila parecia despertar mais devagar. Fiquei algum tempo deitado, a olhar para o tecto, deixando os pensamentos caminharem sem destino.
Ao fim de algum tempo cansei-me de não fazer nada.
Levantei-me, tomei o pequeno-almoço e peguei num livro.
Li algumas páginas, mas a história não me conseguia prender. Fechava-o, voltava a abri-lo, relia o mesmo parágrafo sem lhe guardar o sentido. A cabeça andava noutro lugar.
Acabei por pousá-lo.
Tomei banho, mudei de roupa e fui até ao pátio dar alguns pontapés na bola.
O corpo precisava de se mexer para libertar uma inquietação que eu próprio não sabia explicar.
Regressei depois ao livro.
Desta vez consegui avançar um pouco mais.
Mas continuava distraído.
Enquanto lia, lembrei-me de uma curiosidade que me acompanhava desde criança.
O meu Bilhete de Identidade dizia que eu fazia anos naquele dia.
A cédula pessoal dizia outra coisa.
Era um daqueles pequenos erros burocráticos que, de vez em quando, voltavam às conversas lá de casa.
Sorri sozinho.
Era estranho pensar que um simples papel pudesse dizer uma coisa diferente da outra.
Um documento afirmava uma verdade.
O outro desmentia-a.
Fiquei a pensar nisso durante algum tempo.
No fundo, um nome escrito num papel ou uma data registada num documento não mudavam quem eu era.
As pessoas que gostavam de mim não precisavam de consultar papéis para saber quando eu existia.
Foi então que pensei na Dila.
Sorri.
Tive vontade de lhe contar aquela história absurda.
Conhecia-a suficientemente bem para imaginar a sua reacção.
Primeiro franziria a testa, convencida de que eu estava a brincar.
Depois pedir-me-ia os documentos para confirmar.
E, quando percebesse que era verdade, desataria a rir.
Aquela imagem bastou para me pôr bem-disposto.
Depois do almoço começaram a chegar os colegas do grupo.
Ao fim de pouco tempo estávamos todos reunidos em minha casa.
Resolvemos sair para um passeio.
Precisava de respirar outro ar.
As conversas sobre o DIFI continuavam presentes, mas já não tinham a mesma urgência dos dias anteriores.
Talvez todos estivéssemos cansados de repetir as mesmas perguntas sem encontrar respostas.
Por isso, a certa altura, o assunto mudou naturalmente.
Falámos da escola.
Das férias.
Dos projectos que cada um tinha para os meses seguintes.
Eu caminhava ao lado deles, participando na conversa, mas havia momentos em que me distraía.
Pensava no dia seguinte.
Na promessa que a Dila me fizera.
"Segunda-feira conto-te uma coisa."
Ainda não fazia ideia do que seria.
E, curiosamente, a curiosidade era quase tão agradável como a resposta.
Durante o passeio atravessámos um jardim onde algumas crianças corriam atrás de uma bola.
Num banco, um casal jovem observava um bebé adormecido no carrinho.
Sem querer, voltei a reparar na cena.
Há poucas semanas talvez nem lhes tivesse prestado atenção.
Agora era diferente.
A história inventada pelo Manel continuava a produzir pequenas ondas dentro de mim.
Já não pensava apenas em namoros.
Começava a pensar, ainda que vagamente, em tudo o que vinha depois.
Em responsabilidades.
Em escolhas.
No futuro.
Olhei para aqueles pais tão novos e, por um instante, imaginei como seria um dia deixar de ser apenas filho para passar a ser pai.
A ideia pareceu-me ao mesmo tempo distante e assustadora.
Talvez fosse isso que significava crescer.
Começar a fazer perguntas para as quais ainda não existiam respostas.
Voltámos para minha casa já ao fim da tarde.
Alguém pegou na bola e, poucos minutos depois, estávamos todos a jogar como se tivéssemos dez anos.
Corremos, discutimos golos imaginários, rimos de faltas inventadas.
Durante algum tempo esquecemos completamente o DIFI, o CRM e todas as complicações.
Éramos apenas um grupo de rapazes a aproveitar o último domingo das férias.
Quando se despediram, a casa voltou ao silêncio.
Lanchei, li mais algumas páginas do mesmo livro e, dessa vez, consegui finalmente concentrar-me.
Talvez porque já sabia que o dia estava a chegar ao fim.
Jantei com a família e, mais tarde, liguei a televisão.
As imagens sucediam-se no écran, mas a minha cabeça já estava no dia seguinte.
Voltei a imaginar a paragem.
O trólei.
A Dila a aparecer ao fundo da rua.
Sorri ao lembrar-me da nossa pequena troca de segredos.
Ela queria contar-me uma coisa.
Eu queria contar-lhe outra.
Provavelmente acabaríamos os dois a rir por nenhuma delas justificar tanto mistério.
Mas isso pouco importava.
O que verdadeiramente me fazia falta não era a novidade.
Era voltar a caminhar ao lado dela.
Percebi então que as férias nunca eram apenas uma interrupção das aulas.
Eram também uma interrupção daquilo que começava lentamente a tornar-se a parte mais importante dos meus dias.
Desliguei a televisão e apaguei a luz.
Na manhã seguinte, tudo recomeçaria.
E, pela primeira vez, dei comigo a pensar que alguns recomeços conseguem ser ainda mais felizes do que os próprios começos.
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