As perguntas sem resposta
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Sábado, 16 de Abril de 1977
Acordei cedo, como acontecia sempre aos sábados de aulas.
Ao contrário dos outros dias, havia qualquer coisa de diferente nas manhãs de sábado. Sabia que, ao meio-dia, a semana escolar terminava e que, durante dois dias, cada um regressaria ao seu mundo. Talvez por isso aproveitásse mais cada conversa, cada caminhada, cada silêncio.
Encontrei a Dila na paragem.
Trazia um casaco leve dobrado sobre o braço e um livro apertado contra o peito.
— Bom dia.
— Bom dia.
Olhou para mim com um sorriso malandro.
— Hoje chegaste primeiro.
— Aprendi a lição.
— Ainda bem.
Subimos para o trólei.
Como era sábado, havia menos passageiros e o ambiente era mais tranquilo.
Sentámo-nos juntos.
Durante alguns minutos falámos apenas das aulas.
Depois ela olhou para a rua e perguntou, quase sem olhar para mim:
— Tens planos para as férias da Páscoa?
— Tirando o DIFI... não muitos.
— Ainda vais lá?
Suspirei.
— Vou... mas já não é como era.
Ela ficou calada.
Depois disse baixinho:
— Tenho pena.
Olhei para ela.
— Eu também.
Não falávamos apenas do grupo.
Falávamos de um lugar onde eu passara tantas horas e que começava lentamente a deixar de me pertencer.
Ela percebeu isso sem eu precisar de o explicar.
Chegados ao liceu, acompanhámo-nos até ao sítio do costume.
Antes de nos separarmos, ela disse:
— Segunda-feira conto-te uma coisa.
Olhei para ela, curioso.
— O quê?
Sorriu.
— Se te conto agora, estrago a surpresa.
— Isso não vale.
— Vale, pois.
Afastou-se a rir.
Passei o resto da manhã a tentar adivinhar o que poderia ser.
Tive um furo antes da última aula.
Em vez de ficar pelo liceu, apanhei o trólei até ao local onde trabalhava a minha irmã.
Dissera a mim próprio que ia apenas cumprimentá-la.
Sabia perfeitamente que não era verdade.
Quando entrei, os meus olhos procuraram imediatamente a Rita.
Estava ao balcão.
Parecia completamente recuperada.
Quando me viu, sorriu com naturalidade.
— Então? Voltaste?
— Passei por aqui...
Nem eu consegui dizer a frase com convicção.
Ela sorriu discretamente.
— Pois passaste.
A minha irmã lançou-me um olhar divertido, mas não disse nada.
Conversei alguns minutos com ambas.
A Rita falava comigo com simpatia, mas sem qualquer sinal de que suspeitasse da tempestade que lhe ia dentro da cabeça... ou talvez fosse apenas da minha.
Enquanto a ouvia, ocorreu-me uma comparação inesperada.
Com a Rita, eu ficava sem palavras porque tudo era novidade.
Com a Dila, nunca me faltavam palavras porque já partilhávamos uma pequena vida feita de dias repetidos.
A diferença surpreendeu-me.
Até então nunca a tinha formulado.
Despedi-me pouco depois.
— Bom fim-de-semana.
— Para ti também — respondeu a Rita.
Saí pensativo.
Durante o caminho de regresso ao liceu compreendi que aquilo que sentia pela Rita era diferente de tudo o que conhecera até ali.
Mas também percebi outra coisa.
Quando alguma coisa importante me acontecia, a primeira pessoa a quem tinha vontade de a contar continuava a ser a Dila.
Essa ideia ficou a acompanhar-me até ao toque para a última aula.
Ao meio-dia fui esperá-la.
Mal me viu, perguntou imediatamente:
— Foste a algum lado no furo?
Sorri.
Ela conhecia-me demasiado bem.
— Fui.
— À livraria?
Abanei a cabeça.
— Não.
Esperou.
— Então?
Sorri com ar de quem escondia um segredo.
— Segunda-feira conto-te.
Ela abriu muito os olhos.
— Estás a fazer-me o mesmo?
— Aprendi contigo.
Ela deu-me uma palmada muito leve no braço.
— Isso não se faz.
— Faz, pois.
Rimo-nos os dois.
Durante a viagem de regresso continuámos aquela pequena brincadeira.
No fundo, ambos sabíamos que acabaríamos por contar tudo.
Era apenas uma maneira infantil de prolongar a conversa.
Quando nos despedimos na paragem, ela ainda me apontou o dedo.
— Não te esqueças.
— Também não te esqueças tu.
Sorriu e seguiu caminho.
Fiquei a vê-la afastar-se até desaparecer na esquina.
Só então comecei a caminhar para casa.
Depois de almoço encontrei-me com alguns colegas do grupo.
Demos um longo passeio pelas ruas de S. Pedro.
A conversa voltou inevitavelmente aos problemas do DIFI e ao impasse com o CRM.
Já ninguém escondia o desencanto.
O entusiasmo dos primeiros tempos dera lugar a uma sucessão de reuniões adiadas, desconfianças e explicações incompletas.
Ao fim da tarde dirigimo-nos ao CRM.
Íamos finalmente encontrar os responsáveis e esclarecer tudo.
Ou era isso que esperávamos.
Chegados lá, informaram-nos de que não se encontravam.
O debate teria de ficar para outro dia.
Olhámo-nos em silêncio.
Mais um adiamento.
Mais uma porta fechada.
Começava a tornar-se um hábito.
Encontrámos depois o Manel e acabámos todos por regressar a minha casa.
A conversa perdeu finalmente a seriedade.
Falámos de cinema, de escola, das férias que terminavam e até das partidas do primeiro de Abril.
Era bom voltar a rir.
Precisáva disso.
Ao anoitecer despediram-se.
Jantei com a família e sentei-me diante da televisão.
Mas a minha cabeça permanecia na promessa daquela manhã.
"Segunda-feira conto-te uma coisa."
Sorri.
Talvez ela já nem se lembrasse.
Ou talvez estivesse tão curiosa com o meu segredo como eu estava com o dela.
A verdade é que nenhum dos dois tinha verdadeiros segredos.
Tínhamos apenas pequenas histórias que queríamos guardar durante mais um ou dois dias, para termos uma desculpa para prolongar a próxima conversa.
E talvez fosse isso que tornava aqueles dias tão felizes.
Não eram as grandes revelações.
Era a certeza de que, no dia seguinte, haveria sempre mais qualquer coisa para contar ao outro.
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