Entre a adolescência e o futuro
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Sexta-feira, 15 de Abril de 1977
Acordei com a sensação de que a semana passara demasiado depressa.
Na véspera, ao despedir-me da Dila, parecera-me impossível que já estivéssemos outra vez na sexta-feira. Havia uma estranha tranquilidade entre nós desde o aniversário dela. As conversas continuavam iguais, mas havia qualquer coisa que se tornara mais próxima, mais natural, como se um passo invisível tivesse sido dado sem que nenhum dos dois desse por isso.
Saí de casa e dirigi-me à paragem.
O ar estava morno logo de manhã e prometia outro dia quente.
Pouco depois apareceu a Dila.
— Bom dia.
— Bom dia.
Ficámos um instante a olhar um para o outro.
Depois sorri.
— Hoje já não cheguei atrasado.
Ela fez um ar muito sério.
— Hoje estás perdoado.
— Que generosidade...
Ela riu-se.
Subimos para o trólei e encontrámos dois lugares juntos.
O zumbido do motor acompanhava a cidade que despertava lentamente. O Porto parecia diferente na Primavera. As árvores começavam finalmente a vestir-se de verde e o sol entrava pelas janelas, desenhando manchas de luz sobre o soalho do veículo.
Durante algum tempo falámos apenas da escola.
Dos professores.
Das férias que já tinham terminado.
Dos testes que começariam em breve.
Depois a conversa morreu naturalmente.
Não era um silêncio incómodo.
Era um daqueles silêncios que já nos pertenciam.
Foi então que ela olhou discretamente para uma senhora grávida que viajava alguns bancos à frente.
A mulher segurava a barriga com uma das mãos enquanto o marido permanecia ao seu lado.
A Dila acompanhou-a com o olhar durante alguns segundos.
Depois voltou-se para mim.
— Lembras-te da história do Manel?
Assenti.
— Ainda penso nisso às vezes.
— Eu também.
Ficámos novamente em silêncio.
Ela falou primeiro.
— É estranho...
— O quê?
— Antes parecia que essas coisas só aconteciam aos adultos.
Sorri, sem alegria.
— Também pensava assim.
Ela baixou um pouco a voz.
— Agora já não penso.
Olhei novamente para a senhora.
Também eu deixara de pensar da mesma maneira.
Desde aquele dia, começara a reparar em casais, em crianças pequenas, em mulheres grávidas, em gestos que antes passavam completamente despercebidos.
Era como se uma porta se tivesse aberto dentro da minha cabeça.
Não para responder a perguntas.
Mas para fazer perguntas novas.
A Dila olhou pela janela.
— Ainda bem que aquilo era mentira.
— Eu também acho que sim.
Sorri.
— O Manel nunca mais inventa uma dessas.
Ela deu uma pequena gargalhada.
— Espero bem que não.
Mas percebi que nenhum de nós ria verdadeiramente da história.
Já não.
Aquela falsa notícia deixara marcas que não desapareciam.
Tinha-nos obrigado a olhar para um futuro que até então parecia demasiado distante para existir.
Acompanhei-a até ao liceu.
Antes de entrarmos, ela lembrou-se de repente.
— Hoje a minha irmã faz anos.
— Tens festa em casa?
— Deve haver bolo.
Olhou para mim de lado.
— Pena não poderes ir.
Corei imediatamente.
Ela riu-se da minha reacção.
— Estava a brincar.
— Ainda bem...
— Ficaste assustado.
— Um bocadinho.
Continuámos a rir enquanto nos despedíamos.
Durante um dos intervalos atravessei o recreio para a procurar.
Encontrei-a perto de uma janela.
Conversámos apenas alguns minutos.
Ela perguntou-me por alguns colegas.
Eu perguntei-lhe como estava a irmã.
Depois falámos de um livro que ambos queríamos ler.
Assuntos simples.
Mas, entre nós, nunca eram apenas assuntos.
Eram maneiras de prolongar a companhia um do outro.
Neste dia tive duas horas sem aulas.
Sentei-me num banco do recreio.
Pela primeira vez não me aborreci.
Fiquei simplesmente a observar os outros alunos.
Os grupos.
As amizades.
Os namorados que caminhavam de mão dada sem parecerem preocupar-se com quem os via.
Sorri.
Ainda me parecia impossível fazer uma coisa dessas.
Imaginei a Dila ao meu lado.
Bastou essa imagem para sentir o rosto aquecer.
Afastei imediatamente o pensamento.
Ainda não.
Nem sequer sabia explicar porquê.
Mas sentia que havia coisas que precisavam de crescer ao seu próprio ritmo.
Como as árvores naquela Primavera.
Quando as aulas terminaram, fui esperá-la.
Ela apareceu poucos minutos depois.
— Esperaste muito?
— Nem por isso.
Era mentira.
Esperara sempre demasiado.
Mas nunca lho dizia.
Durante o caminho de regresso falámos pouco.
O cansaço da semana começava finalmente a pesar.
Mesmo assim, aquele pouco bastava.
No trólei, ela encostou a cabeça por instantes ao vidro.
O reflexo juntava o rosto dela ao meu.
Olhei para a janela apenas o tempo suficiente para guardar aquela imagem.
Depois desviei os olhos.
Havia momentos que pareciam demasiado bonitos para serem encarados de frente.
Cheguei a casa, almocei e arrumei alguns livros que andavam espalhados pelo quarto.
Enquanto os colocava na estante encontrei o livro onde a Dila já usava o marcador que lhe oferecera.
Sorri ao lembrar-me da forma como o segurara.
Lanchei, deitei-me um pouco e acabei por adormecer.
Quando acordei já era hora de ir para a Academia.
O treino correu particularmente bem.
Ao partir uma tábua ou ao repetir um golpe, havia sempre qualquer coisa dentro de mim que encontrava ordem.
Como se o corpo ajudasse a organizar pensamentos que a cabeça ainda não sabia resolver.
Regressei a casa já de noite.
Jantei com a família e vi um pouco de televisão.
Antes de me deitar lembrei-me de uma frase que a Dila dissera nesta manhã.
"Antes parecia que essas coisas só aconteciam aos adultos."
Talvez fosse essa a verdadeira mudança.
Os adultos deixavam lentamente de ser pessoas diferentes de nós.
Começavam apenas a ser aquilo em que, sem dar conta, também nós nos iríamos transformar.
E esse pensamento, ao mesmo tempo que me assustava, fazia-me olhar para a Dila com uma ternura nova.
Como se caminhássemos lado a lado por uma ponte invisível entre a infância que ficava para trás e o futuro que ainda não conseguíamos ver.
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