O calor das coisas novas
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Quinta-feira, 14 de Abril de 1977
Acordei um pouco mais tarde do que pretendia.
Ainda me demorava a reviver o dia anterior. A carta. O sorriso da Dila quando me disse que a tinha guardado. O pequeno marcador de livros que ela segurara com um cuidado quase comovente.
Vestia-me enquanto pensava que, afinal, as férias tinham terminado exactamente quando deviam. A espera já começava a custar.
Tomei o pequeno-almoço quase à pressa e segui para a paragem.
Desta vez foi ela quem chegou primeiro.
Vi-a ao longe, encostada ao poste, olhando distraidamente para o movimento da rua.
Quando me viu aproximar, abriu imediatamente um sorriso.
— Hoje atrasaste-te.
— Cinco minutos.
— Quatro e meio — corrigiu ela, divertida.
— Estiveste a contar?
— Claro.
— Isso é perseguição.
Ela riu-se.
— Não. É pontualidade.
Ficámos lado a lado à espera do trólei.
O sol já aquecia como se fosse muito mais tarde. O céu limpo fazia adivinhar um daqueles dias em que o granito da cidade guardava o calor até ao fim da tarde.
Ela abanou ligeiramente os livros, como quem procura uma posição mais confortável.
— Hoje vai estar um calor horrível.
— Ainda ontem dizias que tinhas saudades da Primavera.
— Tenho... mas a Primavera exagerou.
Ri-me.
Era fácil conversar com ela. Nunca precisávamos de procurar assuntos. Eles apareciam sozinhos, como se sempre tivessem estado ali.
Quando o trólei chegou, entrou uma lufada de ar quente.
Sentámo-nos juntos.
Passados poucos minutos, ela fez um gesto com a mão diante do rosto.
— Parece um forno.
— Ainda agora começou o dia.
— Nem quero imaginar à tarde.
Olhei para ela.
Alguns fios de cabelo tinham-se soltado e o calor pintara-lhe as faces de um tom rosado.
Era estranho como começava a reparar em pequenos pormenores que antes me passavam despercebidos.
Talvez sempre lá tivessem estado.
Talvez fosse eu que começava a olhar de maneira diferente.
Ao sairmos do trólei, respirámos quase ao mesmo tempo.
Ela soltou uma gargalhada.
— Muito melhor!
— Parece que voltámos à vida.
Seguimos devagar até ao liceu.
Ainda faltavam alguns minutos para o toque.
Parámos perto do portão.
Ela olhou para mim com uma expressão que já conhecia.
Era a mesma que fazia quando tinha uma pergunta guardada há algum tempo.
— Posso perguntar-te uma coisa?
— Podes.
— Ontem disseste que escolheste aquele marcador porque sabias que eu gostava.
— Sim.
— Como é que sabias?
Sorri.
— Porque passas metade dos intervalos com um livro na mão.
Ela pareceu surpreendida.
— Reparaste nisso?
— Reparo em muita coisa.
Ficou alguns segundos calada.
Depois baixou os olhos para os livros que trazia apertados contra o peito.
— Eu também reparo em ti.
Olhei para ela.
— A sério?
Assentiu, um pouco envergonhada.
— Sei quando estás preocupado, mesmo que tentes esconder.
Não respondi.
Porque era verdade.
Ela continuou:
— Como na semana passada.
Percebi imediatamente a que se referia.
Ao DIFI.
Às preocupações que eu tentara disfarçar.
— Achavas que eu não percebia?
Abanei a cabeça.
— Achei.
Ela sorriu.
— Conheço-te melhor do que pensas.
O toque interrompeu a conversa.
Durante alguns segundos nenhum de nós se mexeu.
Depois seguimos cada um para o seu liceu.
Mas aquelas palavras ficaram comigo.
"Conheço-te melhor do que pensas."
Durante um dos intervalos consegui encontrá-la apenas por alguns minutos.
Estava rodeada pelas colegas.
Mesmo assim afastou-se um pouco.
— Ainda estás preocupado com o DIFI?
Suspirei.
— Um bocadinho.
— Vai resolver-se.
— Espero que sim.
Ela olhou-me directamente.
— Sabes uma coisa?
— O quê?
— Tu preocupas-te demasiado com toda a gente.
Ri-me.
— Isso é defeito?
— Às vezes é.
Sorri.
— Também te preocupas comigo.
Ela ficou surpreendida.
Depois sorriu sem responder.
Não precisava.
O silêncio respondeu por ela.
Quando as aulas terminaram, encontrei-me com o Manel.
Esperámos pela Dila à saída.
Assim que apareceu, o Manel aproximou-se.
— Então, aniversariante? Ainda aceitas parabéns atrasados?
Ela riu-se.
— Ainda.
— Pronto. Muitos parabéns.
— Obrigada.
Pouco depois ele despediu-se para regressar às aulas da tarde.
Ficámos novamente sozinhos.
O caminho até à paragem decorreu numa leveza que me parecia nova.
Falámos de professores, de colegas, de livros e até das primeiras árvores já cobertas de folhas.
O assunto mudava constantemente, mas nunca se esgotava.
Era como se o prazer estivesse menos nas palavras do que no simples facto de caminharmos juntos.
No regresso a casa, o trólei seguia cheio.
Mesmo assim conseguimos ficar lado a lado.
Sem pensar muito, ela segurou-se ao mesmo varão que eu.
Durante alguns instantes as nossas mãos ficaram separadas por poucos centímetros.
Nenhum de nós fez qualquer movimento.
Nem para aproximar.
Nem para afastar.
O trólei abanou numa curva.
Os nossos ombros tocaram-se de leve.
Ela olhou pela janela.
Eu fiz o mesmo.
Mas ambos sorríamos.
Cheguei a casa já com o calor da tarde instalado.
Almocei e deitei-me apenas por alguns minutos.
O quarto mantinha uma frescura agradável, tão diferente da rua, que acabei por adormecer profundamente.
Só despertei quando ouvi bater na janela do quarto.
Era o Manel.
Entrou a rir.
— Dorminhoco!
Olhei para o relógio.
Passava das sete.
— Isto não era uma sesta...
— Era quase hibernação.
Rimo-nos os dois.
Conversámos ainda algum tempo antes de ele se despedir.
Depois jantei e sentei-me diante da televisão.
As imagens sucediam-se, mas eu continuava a pensar na frase da manhã.
"Conheço-te melhor do que pensas."
Talvez fosse verdade.
E talvez eu também começasse, muito devagar, a conhecê-la para lá das conversas e dos passeios.
Percebia os seus silêncios.
As pequenas mudanças de humor.
O brilho diferente dos olhos quando alguma coisa a entusiasmava.
Sem darmos conta, deixávamos de ser apenas dois adolescentes que caminhavam juntos para a escola.
Começávamos a aprender a difícil arte de olhar verdadeiramente um para o outro.
E talvez fosse aí que tudo começava.
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