Quinze anos

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Quarta-feira, 13 de Abril de 1977

Acordei antes do despertador.

Pela primeira vez desde o início das férias, o dia tinha novamente um destino conhecido. Voltei a vestir-me com a pressa de quem regressa a um lugar onde pertence. Enquanto tomava o pequeno-almoço, pensei na carta que lhe enviara na véspera.

Teria chegado?

Gostaria dela?

Não era uma carta importante para mais ninguém.

Para mim era.

Saí de casa mais cedo do que o costume.

Queria voltar à paragem antes dela.

Queria reviver aquele pequeno ritual que as férias me tinham roubado.

O ar da manhã já anunciava a Primavera.

Havia mais gente nas ruas, mais estudantes, mais vozes, mais movimento.

Quando cheguei à paragem senti uma estranha sensação de regresso.

Tudo parecia exactamente igual.

O passeio.

Os carris.

O zumbido dos tróleis ao longe.

Só faltava ela.

Esperei poucos minutos.

Vi-a surgir ao fundo da rua.

Reconheci-a antes mesmo de lhe distinguir o rosto.

Era a maneira como caminhava.

Os livros apertados contra o peito.

O cabelo a mover-se ligeiramente ao ritmo dos passos.

Sorri antes de ela me ver.

Quando levantou os olhos, sorriu também.

— Bom dia!

— Bom dia... e parabéns.

Ela aproximou-se.

— Obrigada.

Olhou para mim durante um instante, com um brilho diferente nos olhos.

— A tua carta chegou ontem.

Senti o coração acelerar.

— Chegou?

— Chegou.

Fez uma pequena pausa.

— Gostei muito.

Baixou ligeiramente os olhos antes de acrescentar:

— Foi a primeira carta de aniversário que recebi de... - fez um pausa propositada e continuou - um amigo.

Sorri.

— Ainda bem que chegou a tempo.

Ela olhou para mim com aquele ar sério que aparecia sempre que dizia alguma coisa importante.

— Não foi só a tempo... foi bonita.

Não soube responder.

Entrou nesse silêncio embaraçado que, entre nós, nunca precisava de ser preenchido.

O trólei chegou nesse momento.

Subimos.

Sentámo-nos lado a lado, como se as férias nunca tivessem existido.

Durante a viagem falámos dos dias que tinham passado separados.

Ela contou-me algumas pequenas histórias de casa.

Eu falei-lhe do DIFI, mas apenas o suficiente para que percebesse que os problemas continuavam.

Não quis estragar-lhe o aniversário com preocupações.

Depois falou da carta.

— Sabes uma coisa?

— O quê?

— Guardei-a.

Sorri.

— Era para isso.

Ela deu-me um pequeno encontrão com o ombro.

— Convencido...

Rimo-nos os dois.

Aquela gargalhada valeu-me toda a espera das férias.

À chegada ao liceu caminhámos devagar.

Nenhum dos dois parecia ter muita vontade de chegar.

Antes de nos separarmos, tirei do bolso um pequeno embrulho.

Ela olhou surpreendida.

— O que é isso?

— Abre depois.

— António...

— Depois.

Pegou nele com cuidado.

Era apenas um pequeno marcador de livros em madeira, simples, comprado dias antes numa papelaria do Porto.

Sabia que ela passava a vida a ler.

Pareceu-me mais adequado do que qualquer outra coisa.

Olhou para o embrulho e voltou a olhar para mim.

— Obrigada.

Disse-o tão baixo que quase se perdeu no ruído dos estudantes.

Durante um dos intervalos fui procurá-la.

Encontrei-a sentada num banco, com duas colegas.

Assim que me viu levantou-se.

Afastámo-nos alguns passos.

Trazia o marcador na mão.

— Já o abri.

— Então?

Passou o dedo pela madeira polida.

— É lindo.

Sorri.

— Sabia que ias dizer isso.

Ela levantou uma sobrancelha.

— Ah, sabias?

— Porque te conheço.

Ficou a olhar para mim alguns segundos.

Depois disse apenas:

— Conheces.

A forma como o disse ficou comigo o resto do dia.

Quando as aulas terminaram, fui esperá-la à saída.

Veio ao meu encontro com aquele sorriso tranquilo que já me era tão familiar.

No caminho para o trólei voltámos a falar da carta.

— A minha mãe perguntou quem ma tinha escrito.

Olhei para ela.

— E tu?

— Disse a verdade.

Esperei.

Ela sorriu.

— Disse que tinha sido o António.

— E?

— E ela perguntou: "O António dos passeios?"

Ri-me.

— Sou esse.

Ela riu também.

— Eu respondi que sim.

Durante alguns segundos caminhámos em silêncio.

Depois acrescentou, quase num sussurro:

— Ela pegou na carta, leu-a e depois entregou-ma de volta sem dizer nada.

Não respondi.

Mas aquela frase teve um efeito estranho.

Era como se, sem darmos por isso, começássemos lentamente a entrar na vida um do outro de uma forma diferente.

Não apenas através de nós.

Também através das nossas famílias.

Cheguei a casa já depois da hora de almoço.

Comi qualquer coisa e deitei-me um pouco.

O cansaço das primeiras aulas e da emoção do reencontro venceu-me.

Acordei já perto da hora do lanche.

Mais tarde apareceu um colega do grupo.

Conversámos algum tempo sobre o DIFI.

Quando ele se foi embora, foi o Manel quem apareceu.

Falámos até ao jantar.

Contei-lhe como correra o aniversário da Dila.

Ele ouviu-me com um sorriso divertido.

— Nunca te vi tão contente por causa dos anos de outra pessoa.

Encolhi os ombros.

— Também nunca tinha acontecido.

Quando ele saiu, apercebi-me de que não tinha fome.

A excitação do dia substituíra completamente o apetite.

Em vez de jantar, ensinei algumas técnicas de judo à minha irmã.

O movimento ajudava-me a acalmar.

Mais tarde sentei-me um pouco diante da televisão.

As imagens passavam sem que lhes prestasse grande atenção.

Na minha cabeça repetia-se apenas um momento.

"Foi a primeira carta de aniversário que recebi de um amigo."

Ela chamara-me amigo.

Sorri.

Naquele instante essa palavra bastava-me.

Porque, aos dezassete anos, há amizades que já transportam dentro delas tudo aquilo que ainda não temos coragem de chamar pelo verdadeiro nome.


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