Uma carta antes do reencontro

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Terça-feira, 12 de Abril de 1977

Acordei mais cedo do que era costume.

No dia seguinte terminavam finalmente as férias e havia qualquer coisa dentro de mim que já não sabia esperar. Levantei-me, tomei o pequeno-almoço e fui cortar o cabelo. Gostava de entrar num novo período da vida com a sensação de que tudo estava em ordem, mesmo que fosse apenas um corte de cabelo.

Quando regressei a casa, o Manel apareceu quase de imediato.

— Hoje já não paras em casa, pois não?

Sorri.

— Como adivinhaste?

— Conheço-te.

Saímos a dar uma volta. Caminhámos sem destino, falando de tudo um pouco. A conversa acabou inevitavelmente por chegar ao dia seguinte.

— Amanhã voltas a ver a Dila.

Assenti.

— Já tenho saudades das nossas viagens.

— Aposto que ela também.

Ficámos alguns instantes em silêncio.

Depois ele perguntou, com um sorriso malicioso:

— E a Rita?

Olhei para ele de lado.

— O que tem?

— Continua doente?

Encolhi os ombros.

— Hoje vou saber.

O Manuel não insistiu. Limitou-se a rir, como quem percebia que eu próprio ainda não entendia muito bem aquela inquietação.

Despediu-se perto da hora de almoço.

Depois de comer, mudei de roupa e apanhei o trólei para o Porto.

Gostava daquela viagem.

As ruas iam enchendo lentamente de gente, as montras sucediam-se umas às outras e o zumbido constante do motor eléctrico acompanhava os pensamentos sem os interromper.

Antes de seguir para o emprego da minha irmã, passei por uma reprografia para tirar algumas fotocópias.

Era um pequeno desvio.

O verdadeiro destino era outro.

Quando cheguei à loja, procurei-a imediatamente.

Desta vez estava lá.

A Rita levantou os olhos quando entrei.

Parecia um pouco mais magra, talvez ainda pálida, mas sorria.

Foi esse sorriso que me fez perceber o quanto estivera preocupado.

Aproximei-me.

— Então... já está melhor?

Ela sorriu.

— Muito melhor.

— Assustou-nos.

— Também me assustei a mim.

Rimo-nos os dois.

Durante alguns segundos não soube o que dizer.

Acabei por falar com a simplicidade que o momento pedia.

— Fiquei com pena quando soube que tinha ido para o hospital.

Ela agradeceu com um pequeno aceno de cabeça.

— Obrigada.

Foi uma conversa curta.

Natural.

Sem qualquer dramatismo.

Mas bastou para me aliviar.

Enquanto falava com a minha irmã e com o patrão, observei-a discretamente.

Movia-se outra vez com a mesma serenidade que me chamara a atenção da primeira vez.

Percebi então que a minha preocupação não nascera apenas do encanto.

Nascia também da vontade sincera de a ver bem.

E isso era diferente.

Saí pouco depois.

Ainda havia uma coisa importante para fazer.

Entrei nos correios com uma carta cuidadosamente dobrada dentro do bolso.

Na véspera tinha escrito uma mensagem de aniversário para a Dila.

Não era uma carta de amor.

Nem podia ser.

Era apenas uma carta de parabéns.

Mas cada palavra fora escolhida com um cuidado que nunca dedicara a nenhuma outra.

Enquanto esperava na fila, tirei novamente o envelope do bolso.

Olhei para o nome dela.

Odília.

Sorri.

Pensei em tudo o que não escrevera.

As saudades das viagens.

As conversas.

A falta que me faziam aqueles pequenos momentos ao lado dela.

Nada disso estava na carta.

E, no entanto, parecia-me que ela acabaria por o sentir nas entrelinhas.

Quando o envelope desapareceu na caixa do correio, tive a estranha sensação de estar a confiar ao acaso uma pequena parte de mim.

Esperava apenas que chegasse a tempo.

Como ainda era cedo, refugiei-me numa livraria.

Passei quase uma hora entre as estantes.

Folheava livros sem grande atenção.

Na verdade, estava apenas a deixar o tempo passar.

Gostava daquele silêncio.

Do cheiro do papel.

Da calma das pessoas que ali entravam apenas para procurar histórias.

Pensei que a Dila teria gostado de estar ali comigo.

Provavelmente acabávamos sentados numa cadeira de algum corredor, cada um a folhear um livro diferente, interrompendo a leitura apenas para mostrar ao outro qualquer frase interessante.

Sorri ao imaginar a cena.

Parecia tão possível que quase me esqueci de que estava sozinho.

Antes de seguir para a Academia, voltei uma última vez ao emprego da minha irmã para me despedir.

Cumprimentei-a, despedi-me do patrão e, por fim, da Rita.

— Até um dia destes.

— Até breve — respondeu ela.

Saí com a tranquilidade de quem deixara para trás uma preocupação.

O treino dessa noite correu particularmente bem.

O corpo movia-se leve, como se também ele soubesse que algumas inquietações tinham finalmente encontrado descanso.

Depois de jantar, sentei-me algum tempo diante da televisão.

Mas a cabeça já estava no dia seguinte.

Imaginava a Dila a abrir a minha carta.

Talvez logo de manhã.

Talvez apenas ao fim da tarde.

Perguntava-me se sorriria ao reconhecê-la.

Se perceberia o cuidado escondido em cada frase.

No dia seguinte faria quinze anos.

E eu voltaria finalmente a esperá-la na paragem.

Percebi então que aquele aniversário tinha um significado muito maior do que a simples passagem de um ano.

Sem nos apercebermos, ambos estávamos a crescer.

E havia qualquer coisa em mim que desejava continuar a crescer exactamente ao lado dela.

Mesmo sem saber ainda até onde esse caminho nos poderia levar.


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