As decisões começam no silêncio

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Segunda-feira, 11 de Abril de 1977

Acordei cedo, mas sem a pressa dos dias de aulas. As férias caminhavam para o fim e eu começava a senti-las demasiado longas. Tomei o pequeno-almoço e, pouco depois, o Manel apareceu em casa.

Sentámo-nos algum tempo a conversar.

Já não havia espaço para brincadeiras como a da falsa gravidez. A vida tratara de nos mostrar, nas semanas seguintes, que as verdadeiras complicações não precisavam de ser inventadas.

Falámos um pouco do grupo, da escola que estava prestes a recomeçar e, inevitavelmente, da Dila.

— Quarta-feira já a vês outra vez — disse ele.

Sorri sem responder.

Não precisava.

Só essa ideia bastava para tornar os últimos dias de férias mais leves.

Quando ele se foi embora, peguei num livro e fiquei a ler até perto da hora de almoço.

As palavras entravam-me pelos olhos, mas a cabeça continuava ocupada com outras coisas.

Dentro de dois dias a rotina regressaria.

O trólei.

A paragem.

Os passeios.

As conversas.

Era estranho perceber que tinha saudades de coisas que, ainda há pouco tempo, me pareciam tão naturais.

Depois de almoço apareceram três colegas do grupo.

Vieram decididos a falar.

Nem foi preciso perguntar sobre o assunto.

Mal saímos de casa e começámos a caminhar, o DIFI voltou a ocupar toda a conversa.

Cada um trazia notícias diferentes.

Versões diferentes.

Suspeitas diferentes.

Durante dias tentei convencer-me de que tudo não passava de um mal-entendido.

Agora começava lentamente a aceitar que era mais do que isso.

Havia uma quebra de confiança.

E quando a confiança se quebra, as explicações deixam quase sempre de chegar.

Caminhámos durante horas pelas ruas, parando de vez em quando para continuar uma discussão que parecia não ter fim.

Eu falava pouco.

Preferia ouvir.

Quanto mais ouvia, mais evidente se tornava uma conclusão que já vinha amadurecendo dentro de mim.

Talvez o problema já não fosse apenas o assalto.

Nem a fechadura.

Nem o arquivo.

O verdadeiro problema era que deixáramos de acreditar uns nos outros.

E um grupo pode sobreviver a muitas dificuldades.

Mas dificilmente sobrevive quando desaparece a confiança.

Ao fim da tarde regressámos a minha casa.

O ambiente mudou completamente.

Arrastámos as cadeiras para o meio da sala e alguém propôs um jogo de mímica.

Aceitámos todos.

Durante quase duas horas esquecemos completamente o DIFI.

Houve gargalhadas, tentativas ridículas de adivinhar filmes, profissões e personagens, gestos completamente absurdos que nos fizeram rir até doer a barriga.

Enquanto os observava, ocorreu-me um pensamento curioso.

Ali estávamos nós, os mesmos rapazes que, poucas horas antes, discutiam assuntos quase sérios como se fossem adultos.

Agora bastava um jogo infantil para voltarmos a ser exactamente aquilo que éramos.

Rapazes adolescentes.

Talvez crescer fosse precisamente isso.

Entrar e sair do mundo dos adultos sem ainda pertencer verdadeiramente a nenhum deles.

Pouco antes das sete despediram-se.

A casa voltou ao silêncio.

Jantei com a família e sentei-me diante da televisão.

Mas o pensamento fugia constantemente para quarta-feira.

O primeiro dia de aulas.

O reencontro com a Dila.

Imaginei o momento em que a veria aparecer na paragem.

Provavelmente traria os livros apertados contra o peito, caminhando com aquele passo que eu aprendera a reconhecer ainda ao longe.

Sorri sozinho.

Depois lembrei-me de outra coisa.

Na quarta-feira ela faria quinze anos.

Ainda não lhe comprara presente.

Nem sabia se devia fazê-lo.

Naquela época um presente podia dizer muito mais do que aquilo que pretendíamos.

Talvez uma simples carta fosse mais prudente.

Mais discreta.

Mais parecida connosco.

Antes de apagar a luz compreendi que a minha maior ansiedade já não era o problema do DIFI.

Nem sequer a saúde da Rita, que esperava sinceramente que estivesse recuperada.

Era voltar à paragem.

Voltar ao trólei.

Voltar aos caminhos onde a vida parecia encontrar sempre o seu lugar.

Sem o perceber, começava a descobrir que os dias só ganhavam verdadeiramente sentido quando podia partilhá-los com a Dila.

E essa certeza já não precisava de explicações.

Bastava-me esperar mais dois dias.


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