A porta fechada
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Domingo, 10 de Abril de 1977
Acordei mais tarde do que era costume.
Hoje é dia de Páscoa, mas a manhã começou de forma pouco festiva. A minha irmã estava com sarampo e a preocupação em casa era maior do que o ambiente próprio deste dia. Depois do pequeno-almoço vesti-me e o meu pai pediu-me que fosse à farmácia buscar os medicamentos de que ela precisava.
Passei boa parte da manhã entre a farmácia e casa.
Enquanto esperava pela receita, dei por mim a observar as famílias que entravam e saíam da rua. Algumas levavam crianças pela mão, outras regressavam da missa com os melhores fatos vestidos.
Pensei na Dila.
Imaginei-a a passar a Páscoa com a família, talvez reunida à mesa, rodeada pelos pais e pela irmã. Sorri ao imaginá-la a ajudar a mãe nos preparativos, embora soubesse que, ao fim de poucos minutos, acabaria por se distrair a ler qualquer livro.
No entanto desconhecia se a sua religião festejava este dia.
Perguntei-me se ela também pensaria em mim de vez em quando.
Não todos os dias.
Bastava de vez em quando.
Esse pensamento acompanhou-me até regressar a casa.
Depois de almoçar segui para o DIFI.
O caminho parecia igual ao de tantos outros domingos.
Mas bastou chegar à porta para perceber que aquele não seria um domingo igual.
A fechadura era outra.
Parei durante alguns segundos a olhar para ela.
Tinha a certeza absoluta de que não era a nossa.
Olhei novamente.
Aproximei-me.
Passei a mão pelo metal frio.
Não havia dúvida.
Tinham mudado a fechadura.
Pouco depois chegaram mais dois colegas.
Também ficaram surpreendidos.
— O que é isto?
Ninguém sabia responder.
A primeira explicação que me ocorreu foi imediata.
— Isto só pode ter sido o Mazola.
Talvez fosse uma conclusão precipitada, mas encaixava demasiado bem nos acontecimentos dos últimos dias.
Mandámos chamar outro colega e decidimos ir todos a casa dele.
Não estava.
Voltámos para trás sem qualquer resposta.
A irritação começava a crescer.
Para evitar dizer ou fazer alguma coisa de que nos arrependêssemos, resolvemos caminhar algum tempo pelas ruas da vila.
Foi uma decisão acertada.
O ar fresco ajudou-nos a acalmar.
Mesmo assim, a pergunta continuava sempre a mesma.
Porque mudariam a fechadura sem dizer nada a ninguém?
Às sete horas regressámos novamente a casa do Mazola.
Desta vez encontrámo-lo.
Recebeu-nos com alguma surpresa, como se já esperasse aquela visita.
Explicou-nos que o DIFI tinha sido assaltado dias antes.
Disse que tinham mudado a fechadura por causa disso.
Enquanto o ouvia, havia qualquer coisa que não encaixava.
As palavras pareciam certas.
Mas faltava-lhes qualquer coisa.
Olhei para os meus colegas.
Também eles tinham percebido.
Saímos de lá com explicações.
Mas não com a verdade.
Ou, pelo menos, era essa a sensação que trazíamos.
Voltei imediatamente ao DIFI.
Precisava de compreender o que realmente se passara.
Encontrei um colega ligado ao CRM e pedi-lhe que me explicasse toda a situação.
Fê-lo com calma.
Segundo ele, depois do assalto, o outro detentor da chave entrara na sala para verificar se faltava algum material.
Durante essa verificação encontraram algumas capas pertencentes ao arquivo do grupo.
Material sem qualquer importância.
Mesmo assim, entenderam que havia motivos suficientes para nos impedir temporariamente o acesso à sala.
Fiquei em silêncio.
Quanto mais ouvia, menos sentido tudo aquilo fazia.
Capas de arquivo.
Papéis.
Pequenos objectos sem valor.
Era por causa daquilo que se levantavam suspeitas?
Era por causa daquilo que nos fechavam a porta?
Saí dali com um peso difícil de explicar.
Não era apenas a porta do DIFI que se fechara.
Era a confiança.
E essa era muito mais difícil de voltar a abrir.
Regressei a casa já ao princípio da noite.
Contei tudo aos meus pais enquanto lanchava.
O meu pai ouviu sem interromper.
Quando terminei, limitou-se a dizer:
— Quando há pouca confiança, qualquer coisa serve de desculpa.
Fiquei a pensar naquela frase.
Talvez resumisse melhor o dia do que todas as explicações que ouvira.
Jantámos em família e, mais tarde, liguei a televisão.
As imagens sucediam-se no ecrã, mas eu quase não lhes prestava atenção.
Agora à noite penso novamente na Dila.
Imagino contar-lhe tudo aquilo quando as aulas recomeçassem.
Conhecia-a suficientemente bem para saber que me ouviria até ao fim antes de dar qualquer opinião.
Depois faria duas ou três perguntas simples.
Perguntas que, provavelmente, eu próprio ainda não teria feito.
Sorri.
Era curioso.
Sempre que a vida se complicava, era à Dila que imaginava pedir conselho.
Não porque esperasse que resolvesse os meus problemas.
Mas porque, ao falar com ela, os problemas deixavam de parecer tão pesados.
Apaguei a luz com uma estranha sensação.
As férias estavam quase a terminar.
E Abril começava lentamente a mostrar que crescer também significava descobrir uma coisa incómoda.
Nem todos os conflitos nascem dos inimigos.
Alguns começam precisamente entre pessoas que julgávamos estar do mesmo lado.
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