Escolher um lado

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Sexta-feira, 8 de Abril de 1977

Levantei-me cedo, como já vinha sendo hábito. Tomei o pequeno-almoço sem pressa e, antes de sair, encontrei o Manel.

Já não falávamos da falsa história do casamento. O assunto desaparecera das conversas, mas não das consequências que deixara para trás. Havia momentos em que bastava olharmos um para o outro para nos lembrarmos daquela manhã de Março em que uma simples invenção nos obrigara, a mim e à Dila, a olhar para o futuro com outros olhos.

O Manel continuava igual a si próprio.

Brincalhão.

Impulsivo.

Como se nunca medisse verdadeiramente o alcance das coisas que dizia.

Conversámos sobre assuntos sem importância e, pouco depois, despedimo-nos.

Segui para o DIFI.

Quando lá cheguei encontrei a porta fechada.

Estranhei.

Olhei para o relógio.

Ainda esperei alguns minutos, convencido de que alguém apareceria.

Ninguém apareceu.

Sentei-me nos degraus da entrada, observando as pessoas que passavam na rua.

Ao fim de algum tempo levantei-me e decidi regressar a casa.

Enquanto caminhava, ocorreu-me que aqueles últimos dias pareciam andar desencontrados. A Rita continuava doente. O ambiente no DIFI mantinha-se estranho. E as férias prolongavam uma ausência que eu começava a sentir cada vez mais.

Dei comigo a desejar ouvir a voz da Dila.

Não precisava de falar de nada importante.

Bastava caminhar ao lado dela.

Depois do almoço voltei ao DIFI.

Desta vez a porta já estava aberta e alguns colegas trabalhavam normalmente.

Passei a tarde inteira com eles.

À primeira vista parecia tudo igual.

Mas bastava prestar atenção para perceber pequenas fissuras.

As conversas dividiam-se.

As decisões começavam a ser tomadas em pequenos grupos.

Havia quem procurasse aproximar-se de uns e afastar-se de outros.

Observei tudo em silêncio.

Nunca gostei de jogos de bastidores.

Sempre acreditei que os problemas se resolviam falando de frente.

Talvez por isso começasse a sentir-me cada vez menos à vontade.

Ao fim da tarde surgiu novamente o nome do Mazola.

Não directamente.

Mas em comentários soltos, em pequenas indirectas, em opiniões que cada um ia deixando cair.

Percebi que alguns colegas esperavam que eu tomasse partido.

Não o fiz.

Ainda não.

Precisava primeiro de perceber exactamente o que estava a acontecer.

Mesmo assim, uma decisão começou lentamente a formar-se dentro de mim.

Gostava de ajudar as pessoas.

Sempre gostei.

Mas ajudar não significava seguir alguém de olhos fechados.

Havia uma diferença.

E talvez estivesse na altura de a aprender.

Saí do DIFI perto das oito horas da noite.

O ar fresco ajudou-me a libertar a cabeça daquela confusão.

No caminho para casa passei por uma paragem de trólei.

Estava quase vazia.

Apenas uma rapariga aguardava, parecia ter alguns livros apertados contra o peito.

Por um instante, vista de costas, fez-me lembrar a Dila.

Não era ela.

Sorri da minha própria distracção.

As férias estavam quase a terminar.

Dentro de poucos dias deixaria de precisar da imaginação para a encontrar.

Jantei em família.

Depois sentei-me no quarto com um livro aberto.

Li apenas algumas páginas.

A leitura interrompia-se constantemente.

Voltei a pensar na Rita.

Continuava sem notícias.

Esperava sinceramente que estivesse a recuperar.

Mas, ao contrário dos dias anteriores, a preocupação já não ocupava todo o espaço.

O DIFI começava a exigir decisões.

E essas preocupavam-me mais do que imaginava.

Antes de me deitar escrevi apenas uma frase no diário:

"Decidi não ajudar o Mazola."

Vista assim, parecia uma decisão simples.

Não era.

O que eu decidira, na verdade, não era voltar costas a uma pessoa.

Era recusar entrar num conflito antes de conhecer toda a verdade.

Talvez fosse um pequeno sinal de que estava a crescer.

Até ali, quase tudo na minha vida se resolvia entre o certo e o errado.

Agora começava a descobrir que existiam zonas cinzentas.

E que, por vezes, a decisão mais difícil era precisamente esperar antes de escolher um lado.


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