Um encontro de passagem
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Quinta-feira, 7 de Abril de 1977
Levantei-me cedo, tomei o pequeno-almoço e saí para o DIFI.
As manhãs começavam todas da mesma maneira, mas já não tinham o mesmo sabor. As férias iam avançando e, pela primeira vez desde que tinham começado, comecei a desejar que terminassem. Descobri que a escola não era apenas o lugar das aulas. Era o lugar onde a Dila fazia parte dos meus dias sem que fosse preciso pensar nisso.
Agora, para a ver, era preciso esperar por um acaso.
E os acasos nem sempre aconteciam.
No DIFI estive ocupado até pouco depois do meio-dia.
Havia sempre qualquer coisa para arrumar, catalogar ou discutir, mas os problemas dos últimos dias tinham deixado o ambiente mais cauteloso. As conversas eram menos espontâneas e eu continuava a observar mais do que a falar.
Quando regressei a casa, almocei rapidamente, mudei de roupa e voltei ao DIFI apenas para resolver um pequeno assunto.
Não fiquei muito tempo.
Tinha decidido ir ao Porto comprar um livro que andava à procura havia já alguns dias.
Apanhei o trólei.
Sentei-me junto à janela, deixando que o zumbido do motor eléctrico e o deslizar quase silencioso pelas ruas acompanhassem os meus pensamentos.
Ainda me acontecia olhar para a porta sempre que o veículo parava.
Era um hábito.
Como se, a qualquer momento, a Dila pudesse entrar.
Sorri dessa ideia.
Foi então que o trólei voltou a parar.
Olhei distraidamente para a plataforma.
E fiquei imóvel.
Quem entrou foi a Dila.
Ao lado dela vinha a mãe. Ao colo seguia a irmã mais nova, que olhava para tudo com a curiosidade própria das crianças.
A Dila ainda não me tinha visto.
Ficou alguns segundos à procura de um lugar.
Depois os nossos olhares encontraram-se.
O sorriso apareceu imediatamente nos dois rostos.
Imaginei ela a aproximar-se e a ter um diálogo solto comigo.
— Então? Outra vez sozinho?
— Parece que sim.
Olhou para o livro que levava debaixo do braço.
— Mais um?
— Ainda nem comprei este.
Ela riu-se.
A mãe cumprimentou-me com simpatia.
É um sonho, eu sei.
Mas deixei-me levar nessa fantasia.
— Boa tarde, António.
— Boa tarde.
O sonho fantasioso acabou quando cruzamos o olhar. A sua expressão assustada pedia que eu fingisse estar distraído. Foi o que fiz.
A presença da mãe tornava impossível um olhar, mesmo que fugidio e isso doeu.
Quando chegou a paragem onde iam sair, a Dila levantou-se.
Antes de descer, dirigiu-me um sorriso disfarçado, triste.
As portas fecharam-se.
Fiquei a vê-las afastarem-se pelo passeio enquanto o trólei retomava lentamente a marcha.
A viagem pareceu-me muito mais curta depois daquele encontro.
Às vezes bastavam cinco minutos para transformar completamente um dia.
Cheguei ao Porto.
Comprei finalmente o livro que procurava e, quase sem pensar, os meus passos seguiram depois o caminho habitual.
O emprego da minha irmã.
Ou, mais exactamente, o lugar onde esperava encontrar notícias da Rita.
Mal entrei, procurei o rosto da minha irmã.
Ela percebeu imediatamente a razão da visita.
Antes mesmo que eu perguntasse, abanou a cabeça.
— Ainda não voltou.
— E sabes como está?
— Não. Ainda ninguém disse nada.
Foi uma resposta curta.
Mas suficiente para me deixar novamente inquieto.
Despedi-me pouco depois.
Não havia mais nada a fazer.
Regressei a casa ao fim da tarde.
Lanchei, li algumas páginas do livro novo e deixei a televisão fazer companhia ao silêncio da sala.
Mas, curiosamente, nessa noite os meus pensamentos demoraram muito menos tempo a chegar à Rita.
Continuavam lá.
Claro que continuavam.
Mas o encontro inesperado no trólei ocupara quase todo o espaço.
Voltei a recordar o sorriso triste da Dila quando saiu.
Mesmo existindo um abismo entre nós naquele momento, bastou para colmatar um pouco a saudade que sentia.
Adorei a forma como bastava estarmos alguns minutos juntos para tudo parecer voltar ao lugar.
Foi então que compreendi uma diferença que até ali me escapara.
A Rita despertava em mim expectativa.
A Dila dava-me paz.
Ainda não sabia qual desses sentimentos era mais importante.
Nem imaginava que, por vezes, é precisamente essa diferença que decide silenciosamente o rumo de uma vida.
Mas, sem o perceber, começava a aproximar-me dessa resposta.
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