Há dias em que a espera também adoece

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Quarta-feira, 6 de Abril de 1977

Acordei à mesma hora dos dias anteriores. Tomei o pequeno-almoço e saí para o DIFI, aproveitando a frescura da manhã. As férias continuavam a decorrer lentamente, mas já começava a sentir falta da escola. Não das aulas. Daquilo que existia antes e depois delas.

Da Dila.

Era estranho como bastara revê-la durante dez minutos, no dia anterior, para a ausência se tornar ainda mais evidente.

Ao passar pela paragem, imaginei-a ao meu lado, a implicar comigo por continuar a acordar cedo durante as férias.

— Não sabes descansar?

— Descanso quando acabar de descansar.

Ela rir-se-ia daquela resposta sem sentido.

Sorri sozinho e continuei caminho.

Durante a manhã ocupei-me a terminar um modelo de avião que andava há dias por acabar.

Era um trabalho paciente. Cada peça tinha de encaixar na anterior, sem pressas nem improvisos. Gostava daquele género de tarefas. Obrigavam-me a concentrar-me e, durante algum tempo, esquecia tudo o resto.

Mas bastava pousar o modelo por um instante para os pensamentos regressarem.

Voltei a lembrar-me da Rita.

Desde que soubera que fora para o hospital, havia uma preocupação discreta que não me abandonava. Não era uma angústia profunda, porque quase não a conhecia. Era antes uma inquietação difícil de justificar.

Perguntei a mim próprio se teria o direito de me preocupar tanto com alguém de quem sabia tão pouco.

A resposta não apareceu.

Pouco depois do meio-dia arrumei o material e regressei a casa.

Depois de almoçar voltei ao DIFI.

Continuei a trabalhar no modelo de avião e, durante algum tempo, consegui convencer-me de que estava completamente concentrado.

Não estava.

A certa altura dei por mim a pensar que, se a Dila estivesse ali, provavelmente acharia graça à minha falta de jeito para esconder aquilo que sentia.

Ela conhecia-me demasiado bem.

Quando alguma coisa me preocupava, bastava olhar para mim durante alguns segundos para perceber.

Nunca insistia.

Esperava.

Era essa paciência que eu mais admirava nela.

Sem o saber, ensinava-me muitas vezes a esperar antes de tirar conclusões.

Foi talvez por isso que, apesar da vontade de voltar ao emprego da minha irmã para saber notícias da Rita, acabei por não ir.

Se estivesse melhor, acabaria por saber.

Se continuasse doente, também.

Não havia nada que eu pudesse fazer.

Pouco depois das sete horas demos por terminado o trabalho.

Cheguei a casa ao fim da tarde.

Lanchei e sentei-me algum tempo diante da televisão.

Mais tarde saí para uma breve reunião na sede do Partido Comunista. A conversa prolongou-se pouco tempo e regressei antes de a noite estar muito avançada.

Voltei a ligar a televisão mais por companhia do que por interesse.

Foi então que a minha irmã entrou.

Olhei imediatamente para ela.

Nem precisei de fazer a pergunta.

Ela percebeu.

— A Rita já está em casa.

Respirei de alívio.

Mas a frase não terminara.

— Continua muito doente.

O alívio ficou suspenso.

— Muito doente?

Ela assentiu.

— Ainda vai demorar a recuperar.

Ficámos os dois em silêncio.

Imaginei-a fechada em casa, sem poder trabalhar, talvez deitada na cama, enquanto os dias passavam lentamente.

Era estranho sentir aquela preocupação.

Ainda há pouco mais de uma semana era apenas a colega da minha irmã.

Agora bastava saber que estava doente para o meu pensamento voltar constantemente até ela.

Quando fui para o quarto, sentei-me algum tempo junto da janela.

A rua estava quase deserta.

Pensei na Dila.

Se soubesse de tudo isto, provavelmente ouvir-me-ia em silêncio até eu acabar de falar.

Depois diria qualquer coisa simples, daquelas frases que pareciam pequenas mas ficavam connosco muito tempo.

Talvez dissesse apenas:

— Vais ver que ela fica boa.

E, dito por ela, eu acreditaria.

Antes de apagar a luz ocorreu-me uma ideia que nunca antes tivera.

Havia pessoas que nos davam serenidade apenas por existirem.

A Dila era uma delas.

E talvez fosse por isso que, sempre que a vida começava a complicar-se, era dela que o meu pensamento acabava inevitavelmente por se aproximar.

Sem esforço.

Como quem regressa a casa.


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