Dez minutos que valeram um dia inteiro

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Terça-feira, 5 de Abril de 1977

Levantei-me cedo, tomei o pequeno-almoço e saí para o DIFI.

A manhã começou como tantas outras desde o início das férias. As ruas iam despertando devagar, mas continuavam a parecer incompletas sem o movimento dos estudantes. Sempre que passava pela paragem do trólei, os olhos procuravam-na instintivamente.

Era um hábito mais forte do que a razão.

Sabia que a Dila não estaria ali.

Mesmo assim, olhava.

No DIFI procurei ocupar-me com pequenas tarefas. Arrumei alguns papéis, conversei com um ou outro colega e participei em alguns trabalhos que tinham ficado pendentes. A manhã decorreu sem sobressaltos, mas a notícia do dia anterior continuava presente.

De vez em quando perguntava-me como estaria a Rita.

Teria regressado do hospital?

Seria apenas uma indisposição passageira?

Ou haveria alguma coisa mais séria?

Tentava afastar essas perguntas, mas regressavam sempre.

Pouco depois do meio-dia voltei para casa.

Mal entrei, ainda nem pousara o casaco, a minha irmã chamou-me da cozinha.

— Tono.

Aproximei-me.

Tinha um sorriso discreto, daqueles que anunciam qualquer coisa boa.

— Se tiveres paciência e esperares um bocadinho... vais ver a Dila.

Olhei para ela, surpreendido.

— A Dila?

— Vai passar por aqui daqui a pouco.

Não fiz mais perguntas.

Sentei-me junto da janela como se estivesse perfeitamente tranquilo.

Não estava.

Passaram talvez dez minutos.

Depois vi um vulto ao longe.

Levantei-me quase de um salto.

Era ela.

Saí a correr.

Encontrei-a com aquele sorriso que me pareceu imediatamente familiar, como se as férias tivessem desaparecido durante um instante.

— Então, desaparecido!

Sorri.

— Quem desapareceu foste tu.

— Eu?

— Não te vejo há tantos dias...

Ela riu-se.

— Parece que foi um mês.

— A mim também.

Sentámo-nos durante alguns minutos.

A conversa começou exactamente onde a tínhamos deixado antes das férias.

Falámos da escola, dos primeiros dias sem aulas, dos livros que ela andava a ler e das pequenas rotinas que ambos começavam a achar aborrecidas.

Não era preciso esforço.

As palavras apareciam naturalmente.

A certa altura olhou para mim com um ar curioso.

— E tu? O que tens feito?

Hesitei apenas um instante.

Pensei na Rita.

Pensei em contar-lhe.

Mas alguma coisa me impediu.

Talvez porque ainda nem eu compreendesse o que se estava a passar.

Acabei por responder apenas:

— Tenho andado pelo DIFI.

Ela sorriu.

— Tu e o DIFI...

Ficámos ambos a rir.

Aqueles poucos minutos bastaram para me devolver uma tranquilidade que nem sabia ter perdido.

Quando se levantou para seguir caminho, acompanhei-a apenas durante algum tempo, por segurança.

— Então... até depois das férias.

— Passam depressa.

— Espero que sim. - respondi fazendo uma pantominice.

Olhou para mim antes de seguir adiante.

— Já tinha saudades das tuas brincadeiras.

Sorri.

— Também já tinha saudades de te ouvir dizer isso.

Despediu-se com um aceno.

Fiquei a vê-la afastar-se até desaparecer na esquina da rua.

Só então voltei para casa.

A minha irmã olhava para mim divertidíssima.

— Agora já podes respirar outra vez.

Ri-me.

Talvez tivesse razão.

Depois de almoçar li um pouco.

Pela primeira vez em vários dias consegui concentrar-me verdadeiramente num livro.

Era como se aqueles dez minutos tivessem posto alguma ordem dentro da minha cabeça.

Ao princípio estranhei essa sensação.

Depois compreendi.

A Dila tinha esse efeito em mim.

Nunca fazia nada de extraordinário.

Limitava-se a estar.

E isso bastava.

Regressei ao DIFI durante a tarde.

Eu e outros colegas dedicámo-nos à construção de maquetas para alguns trabalhos do grupo. Cortávamos cartão, colávamos peças, discutíamos medidas e corrigíamos pequenos erros.

O trabalho manual obrigava a atenção e as horas passaram depressa.

Mesmo assim, em alguns momentos, a Rita voltava ao pensamento.

Esperava sinceramente que já estivesse melhor.

Perto das seis horas arrumámos o material e dei o dia por terminado.

Lanchei rapidamente e segui para a Academia.

O treino foi intenso.

Depois dos últimos dias, soube-me bem voltar a concentrar todas as energias no tatami. Cada exercício parecia limpar um pouco da confusão que se acumulava dentro da cabeça.

Regressei a casa já de noite.

Jantei com a família e sentei-me ainda um pouco diante da televisão.

Quando a minha irmã chegou, fui ter com ela quase sem pensar.

— Então... há notícias da Rita?

Ela abanou a cabeça.

— Ainda não.

A resposta deixou-me um pouco desanimado.

Mas logo a seguir lembrei-me da visita da Dila.

Era curioso.

Nesta noite havia duas preocupações diferentes dentro de mim.

Uma nascia da amizade profunda construída ao longo de muitos meses.

A outra da inquietação provocada por alguém que ainda mal conhecia.

Pela primeira vez comecei a aceitar que não precisava de escolher entre uma e outra para compreender o que sentia.

Bastava deixar que o tempo fizesse aquilo que eu ainda não sabia fazer.

Esclarecer o coração.

E, nesta idade, o tempo parecia sempre demasiado lento.


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