A notícia que fez parar o dia
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Segunda-feira, 4 de Abril de 1977
Levantei-me sem pressa. As férias continuavam a dar aos dias um ritmo estranho, como se o tempo tivesse deixado de obedecer ao relógio. Tomei o pequeno-almoço, lavei a cabeça e só por volta das dez e meia saí de casa em direcção ao DIFI.
A manhã estava luminosa, mas a Vila parecia suspensa naquele silêncio próprio dos dias sem escola. Durante o caminho ocorreu-me, quase por hábito, imaginar a Dila a sair de casa para o liceu. Só alguns segundos depois me lembrei de que também ela estava de férias.
Sorri.
Ainda não me habituara à ausência daquela rotina.
No DIFI encontrei a sala vazia.
Fiquei sozinho durante quase toda a manhã.
Sentei-me junto do arquivo, folheei alguns papéis, arrumei outros, mas a verdade era que pouco fiz. Quando não havia ninguém com quem conversar, os pensamentos ocupavam rapidamente o lugar do trabalho.
Foi inevitável lembrar-me da conversa da semana anterior com a Dila.
Se houvesse aulas, naquele momento estaríamos provavelmente a caminhar um ao lado do outro, inventando assunto para prolongar o caminho até ao liceu.
Dei por mim a sentir saudades dessa simplicidade.
Perto do meio-dia apareceu um colega.
Conversámos durante algum tempo sobre assuntos do grupo, trocámos duas ou três opiniões sobre os problemas que começavam a surgir e, pouco depois, vim embora.
Depois de almoçar, mudei de roupa.
Não demorou muito até o Manel aparecer à porta.
— Vamos ao Porto?
— Vamos.
Saímos sem destino muito definido.
Ou, pelo menos, era isso que eu fingia.
Primeiro passámos por uma papelaria para comprar um postal que precisava de enviar. Depois entrámos numa tipografia onde o Manel tinha um assunto a tratar.
Seguimos depois para uma livraria.
Andava há dias com vontade de comprar um livro de ovnilogia e acabei por o encontrar. Passei alguns minutos a folheá-lo antes de o levar comigo.
O Manel olhava para mim divertido.
— Hoje estás cheio de compras.
— Ainda falta uma paragem.
Ele sorriu.
— Eu sei qual é.
Não respondi.
Não era preciso.
Chegámos ao local onde a minha irmã trabalhava.
Desta vez entrei com uma expectativa diferente.
Nos últimos dias habituara-me à ideia de encontrar a Rita atrás do balcão, ocupada no seu trabalho, e bastava-me esse pequeno momento para considerar a tarde bem empregue.
Mal entrei, procurei-a instintivamente.
Não estava.
A minha irmã percebeu logo o que eu procurava.
Aproximou-se de mim.
— A Rita não veio.
Senti qualquer coisa apertar-se dentro de mim.
— Não veio?
Ela abanou a cabeça.
— De manhã teve de ir para o hospital.
Fiquei imóvel.
— Ao hospital?
— Sim.
— Foi alguma coisa grave?
Encolheu os ombros.
— Não sei. Só sei que passou mal e foi de manhã.
Olhei automaticamente para o lugar onde ela costumava estar.
Parecia estranho vê-lo vazio.
De repente, o resto da tarde perdeu importância.
A imagem da Rita deixou de ser a da rapariga serena que sorria atrás do balcão.
Passei a imaginá-la numa cama de hospital.
Sem querer.
Sem conseguir evitar.
O Manel aproximou-se.
— Então?
Limitei-me a responder:
— Está no hospital.
Ele percebeu imediatamente que não me apetecia prolongar o assunto.
Ficámos ali apenas mais alguns minutos.
Despedi-me da minha irmã e saímos.
Durante o caminho de regresso falei muito pouco.
O Manel tentou puxar conversa sobre o livro que tínhamos comprado, sobre o DIFI e até sobre os planos para as férias.
Respondia-lhe, mas a minha cabeça continuava noutro sítio.
Era uma sensação estranha.
Conhecia tão pouco a Rita.
Mesmo assim, a simples notícia de que estava doente bastara para transformar completamente o meu dia.
Enquanto caminhávamos, lembrei-me da Dila.
Tive a certeza de que, se fosse ela a adoecer, eu sentiria exactamente a mesma preocupação.
Não.
Corrigi-me imediatamente.
Não seria a mesma.
Seria muito maior.
Aquela diferença surgiu-me com uma clareza inesperada.
Não diminuía a inquietação que sentia pela Rita.
Mas ajudava-me a compreender melhor o lugar que cada uma ocupava dentro de mim.
A Dila fazia parte da minha vida.
A Rita começava apenas a fazer parte dos meus pensamentos.
Era uma distinção importante.
Embora eu ainda não soubesse explicá-la por palavras.
Cheguei a casa, lanchei e permaneci por lá até ao jantar.
Nem me apetecia ler.
Nem ver televisão.
Peguei várias vezes no livro de ovnilogia que comprara nessa tarde.
Abri-o.
Fechei-o logo a seguir.
A cabeça recusava concentrar-se.
Quando a minha irmã chegou a casa, fui imediatamente ao seu encontro.
— Há notícias?
Ela abanou a cabeça.
— Ainda não.
Assenti em silêncio.
Não havia mais nada a perguntar.
Nessa noite percebi uma coisa que nunca me ocorrera.
Há pessoas que entram nas nossas vidas devagar, quase sem darem por isso.
E basta uma única ausência para nos revelar que já lhes reservámos um lugar dentro de nós.
Adormeci sem saber como estaria a Rita.
Mas, antes de o sono chegar, houve ainda um último pensamento que me acompanhou.
Senti saudades da Dila.
Pela primeira vez desde o início das férias, desejei verdadeiramente que as aulas recomeçassem depressa.
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