Caminhos que começam a separar-se
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Sábado, 9 de Abril de 1977
Levantei-me cedo, tomei o pequeno-almoço e saí para o DIFI.
As férias aproximam-se do fim e começo a sentir que estes dias estam a passar demasiado depressa e, ao mesmo tempo, demasiado devagar. Depressa porque Abril já ia adiantado. Devagar porque cada dia parecia arrastar consigo as mesmas perguntas sem resposta.
A Rita continuava doente.
No DIFI continuava a existir um ambiente que já não me inspirava a confiança de outros tempos.
E a Dila permanecia ausente, confinada às raras coincidências que as férias permitiam.
Cheguei ao DIFI pouco depois da abertura.
Durante a manhã fiz muito pouco.
Conversei com alguns colegas, consultei alguns apontamentos e dei uma ajuda em pequenas tarefas, mas a verdade é que ninguém parecia ter grande vontade de trabalhar.
As conversas acabavam quase sempre por regressar aos problemas do grupo.
Eu ouvia mais do que falava.
Quanto mais escutava, mais convencido ficava de que fizera bem em não me deixar arrastar por discussões que ainda não compreendia completamente.
Pouco depois da meia hora resolvi vir embora.
Não havia ali nada que justificasse permanecer.
Depois do almoço fiquei em casa.
Na véspera tomara finalmente uma decisão.
Não iria ajudar o Mazola.
Não por zanga.
Nem por ressentimento.
Apenas porque sentia que estava a ser pedido a cada um de nós que escolhesse um lado antes de conhecer toda a história.
E eu recusava-me a fazê-lo.
Foi estranho permanecer em casa sabendo que podia estar noutro lugar.
Mas, pela primeira vez em muitos dias, senti que aquela escolha dependia apenas de mim.
Ao princípio estranhei esse silêncio.
Depois comecei a apreciá-lo.
A meio da tarde bateram à porta.
Era um colega do grupo.
Entrou, conversámos durante algum tempo e, pouco depois, chegaram mais dois.
Já tínhamos combinado aproveitar a tarde para passear até à Serra da Pia.
Saímos todos juntos.
Assim que deixámos a Vila para trás, senti o corpo descontrair.
O ar era diferente.
Mais limpo.
Mais leve.
Durante a caminhada falámos de tudo um pouco.
Naturalmente, o DIFI acabou por surgir na conversa.
Mas, ao contrário das discussões dos últimos dias, ali ninguém levantava a voz.
Cada um expunha a sua opinião.
Os outros ouviam.
Discordavam quando era preciso.
Voltavam a explicar.
Sem ataques.
Sem ironias.
Sem segundas intenções.
Foi talvez a primeira conversa verdadeiramente tranquila que tive sobre o assunto.
À medida que caminhávamos pelos trilhos da serra, fomos observando diferentes locais que poderiam interessar ao grupo para futuros estudos e actividades.
Parávamos frequentemente para analisar o terreno, trocar ideias e discutir possibilidades.
Curiosamente, apesar das opiniões diferentes, acabávamos quase sempre por chegar ao mesmo entendimento.
Enquanto os ouvia, ocorreu-me um pensamento simples.
Talvez os problemas não nascessem das diferenças.
Talvez nascessem da maneira como lidávamos com elas.
Na serra, ninguém precisava de vencer ninguém.
No DIFI começava a parecer que alguns só ficariam satisfeitos quando houvesse vencedores e vencidos.
Essa diferença ficou a ecoar dentro de mim durante o resto da caminhada.
Regressámos perto das seis horas.
Despedi-me dos colegas e vim para casa.
Lanchei enquanto a televisão fazia apenas ruído de fundo.
Mas a minha cabeça viajava para outro lugar.
Perguntei-me como estaria a Dila.
Imaginei que também ela aproveitasse aqueles últimos dias de férias para passear com a família ou simplesmente para descansar.
Sorri ao lembrar-me do nosso encontro inesperado no trólei.
Continuava a vê-la levantar-se ao chegar a paragem, despedindo-se com aquele sorriso tranquilo que parecia nunca precisar de grandes palavras.
Pensei depois na Rita.
Não tinha voltado a saber nada dela.
A ausência de notícias começava a tornar-se uma notícia em si mesma.
Esperava sinceramente que estivesse a recuperar.
Depois do jantar continuei a ler o livro que começara dias antes.
As páginas sucediam-se, mas dei por mim a reler várias passagens.
Não era falta de interesse.
Era excesso de pensamentos.
Ao apagar a luz, tive a sensação de que aquele sábado me ensinara uma coisa importante.
Nem sempre é nos dias cheios de acontecimentos que crescemos mais.
Às vezes basta uma caminhada, uma conversa serena e a coragem de não seguir o caminho mais fácil.
Sem dar por isso, começava lentamente a escolher o homem que um dia queria ser.
Ainda não sabia se conseguiria.
Mas, pela primeira vez, parecia-me que crescer era feito precisamente destas pequenas decisões silenciosas.
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