A importância de um gesto
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Quinta-feira, 12 de Maio de 1977
Acordei cedo.
Queria chegar à paragem com tempo. O céu estava carregado desde o nascer do dia e o vento anunciava chuva. Ainda antes das sete e meia passou um trólei completamente cheio. O seguinte demorou tanto que começámos ambos a olhar repetidamente para o relógio.
— Hoje vamos chegar atrasados — disse a Dila.
— Não há muito a fazer.
Quando finalmente conseguimos entrar, já o veículo seguia apinhado de gente. A viagem fez-se aos solavancos, entre passageiros apertados e vidros embaciados.
— Se o professor ralhar, a culpa é tua — brincou ela.
— Minha?
— Sim. És sempre uma boa desculpa.
— Fico honrado.
Riu-se.
Era um daqueles risos espontâneos que lhe iluminavam o rosto.
Chegámos ao liceu já depois do toque.
Como sabíamos que a aula já tinha começado e dificilmente nos deixariam entrar de imediato, resolvemos aproveitar aqueles minutos para caminhar um pouco pelas imediações.
Falámos sem pressa.
Das aulas.
Do calor estranho que a Primavera já trazia.
Do Verão que parecia aproximar-se depressa demais.
Não havia qualquer sombra entre nós.
Pelo contrário.
A manhã decorreu com uma leveza que me fazia acreditar que nada poderia alterar aquilo que existia entre nós.
Quando nos despedimos para entrarmos finalmente nas aulas, ela sorriu.
— Até logo.
— Até logo.
Passei a manhã quase sempre bem-disposto.
Ainda pensei, mais do que uma vez, na conversa que tínhamos tido enquanto esperávamos para entrar no liceu. Eram momentos tão simples que, na altura, me pareciam destinados a repetir-se para sempre.
A chuva começou ainda durante a última aula.
Ao princípio ninguém lhe prestou grande atenção. Era uma daquelas bátegas de Maio que surgiam sem aviso e desapareciam quase com a mesma rapidez. O céu escureceu, ouviu-se a água bater nos vidros e alguém comentou que, àquela velocidade, as ruas ficariam alagadas antes da hora de saída.
Quando a campainha tocou, continuava a chover.
À porta do liceu formaram-se pequenos grupos de alunos à espera que o aguaceiro abrandasse. Uns protegiam a cabeça com os cadernos, outros riam enquanto calculavam a melhor maneira de atravessar a rua sem chegarem completamente encharcados.
O Manel apareceu ao meu lado com um guarda-chuva aberto.
— Vamos.
Olhei para o céu.
— Isto passa num instante.
— Passa, passa... e entretanto ficas ensopado.
Sorri e meti-me debaixo do guarda-chuva.
Poucos metros mais à frente encontrámos a Dila.
Estava encostada à parede de um prédio, protegida por uma pequena varanda. Segurava os livros junto ao peito enquanto observava a chuva cair sobre o empedrado da rua.
Chamei-a.
— Anda connosco.
Ela sorriu e juntou-se a nós.
O guarda-chuva, que já parecia pequeno para dois, tornou-se claramente insuficiente para três.
Tentámos caminhar mais juntos. O Manel segurava o cabo com o braço estendido, procurando cobrir-nos a todos, mas bastava uma rajada de vento para a chuva entrar de lado.
A Dila seguia entre nós.
Vi algumas gotas caírem-lhe sobre o cabelo.
Depois sobre o ombro.
Sem pensar.
Sem decidir.
Sem sequer sentir que estava a fazer alguma coisa de especial.
Levantei o braço e passei-o por trás dos seus ombros, aproximando-a um pouco mais do centro do guarda-chuva.
Foi um gesto tão natural como segurar um livro que estivesse prestes a cair.
Nada mais.
Continuámos a andar.
Durante dois ou três passos pareceu-me que tudo estava bem.
A chuva continuava a bater no pano do guarda-chuva.
Os nossos passos mantinham o mesmo ritmo.
Ninguém dizia nada.
Então aconteceu.
Senti a Dila afastar-me a mão do ombro.
Não foi um movimento violento.
Foi rápido.
Decidido.
Como quem corrige uma coisa que não devia estar ali.
Olhei para ela.
Ela olhou para mim.
Foi apenas um instante.
Talvez nem um segundo.
Mas, naquele olhar, julguei ler qualquer coisa que nunca tinha visto.
Censura.
Afastei imediatamente o braço.
Continuei a caminhar.
A conversa prosseguiu.
O Manel disse qualquer coisa sobre a chuva.
A Dila respondeu.
Eu também devo ter respondido.
Agora não faço ideia ao quê.
Porque deixei de ouvir.
O barulho da chuva passou a soar muito mais alto.
Nunca tinha pensado que um simples gesto pudesse envergonhar-me tanto.
Não compreendia o que acabara de acontecer.
Tinha feito alguma coisa de errado?
Teria abusado da confiança dela?
Durante semanas tínhamos caminhado lado a lado.
Ríamos.
Conversávamos.
Partilhávamos livros.
Não fora ela quem, tempos antes, aceitara dar-me a mão?
Porque é que agora...
Porque é que aquele simples gesto parecia tê-la incomodado tanto?
As perguntas sucediam-se sem resposta.
E, quando uma pergunta não encontra resposta, a imaginação ocupa-lhe o lugar.
Comecei a responder por ela.
"Ela não gostou."
Mais alguns passos.
"Ela não queria que eu lhe tocasse."
Atravessámos uma rua.
"Talvez eu tenha imaginado tudo desde o princípio."
Cada pensamento parecia mais verdadeiro do que o anterior.
Quando nos despedimos, procurei sorrir.
Nem sei se consegui.
Ela despediu-se como sempre.
Naturalmente.
Mas o "como sempre" já não existia.
Regressei a casa debaixo de um céu que continuava carregado.
A roupa secaria.
Os livros também.
O que eu não sabia era que havia coisas que não secam com o tempo.
Durante toda a tarde revivi aquele instante.
O braço.
A mão dela.
O olhar.
Voltava sempre ao mesmo ponto, como um disco riscado.
Podia tentar distrair-me.
Ler.
Escrever.
Ouvir música.
Nada resultava.
A cena repetia-se vezes sem conta.
E, em cada repetição, a vergonha tornava-se maior.
Não pensei uma única vez que pudesse existir outra explicação.
Não pensei na educação que a Dila recebera.
Não pensei nos limites que talvez lhe tivessem imposto.
Não pensei sequer que ela pudesse ter agido por puro impulso.
Apenas pensei em mim.
Naquilo que julgava ter visto.
Naquilo que julgava ter sentido.
E essa convicção começou, silenciosamente, a transformar-se numa certeza.
À noite, antes de apagar a luz, dei por mim a fazer uma promessa que não cheguei a formular em voz alta.
Era apenas uma decisão vaga.
Instintiva.
Uma forma de evitar voltar a sentir a mesma humilhação.
Se ela não queria que eu me aproximasse...
Então seria eu a manter a distância.
Sem saber, acabara de plantar a primeira pedra de um muro que demoraria muito tempo a ser derrubado.
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