O peso do silêncio
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Sexta-feira, 13 de Maio de 1977
Acordei mais cansado do que era costume.
Durante a noite acordei várias vezes e, sempre que voltava a adormecer, acabava por pensar outra vez no que tinha acontecido na véspera. Era como se aquele pequeno instante debaixo do guarda-chuva se recusasse a ficar para trás.
Levantei-me decidido a não pensar mais no assunto.
Disse para comigo que tudo voltaria ao normal. Tinha sido um momento infeliz, nada mais. Bastava agir como sempre.
Enquanto caminhava para a paragem do trólei, repetia isso vezes sem conta.
Quando a vi ao longe, senti imediatamente o estômago apertar-se.
Ela já lá estava.
Assim que me aproximei, sorriu.
— Bom dia.
— Bom dia.
Sorri também, ou pelo menos tentei.
Fiquei com a impressão de que ela não tinha dado por nada. Falava comigo exactamente da mesma maneira de sempre, como se o dia anterior tivesse terminado sem deixar qualquer marca.
Isso devia ter-me tranquilizado.
Mas aconteceu o contrário.
Quanto mais natural ela parecia, mais eu me interrogava se não teria imaginado tudo.
Ao mesmo tempo, bastava recordar aquele gesto para voltar a sentir a mesma vergonha.
Entrámos no trólei.
Como habitualmente, seguimos quase toda a viagem a conversar. Ou melhor... foi ela quem falou mais.
Eu respondia.
Mas já não era igual.
Por várias vezes dei por mim a escolher cuidadosamente as palavras antes de abrir a boca. Tinha medo de dizer alguma coisa que pudesse parecer inconveniente.
Nunca antes me acontecera.
Quando chegámos ao liceu, caminhámos juntos até sítio do costume.
Por duas ou três vezes os nossos braços quase se tocaram enquanto atravessávamos o passeio.
Instintivamente afastei-me um pouco.
Ela pareceu não reparar.
Ou, se reparou, nada disse.
Passei toda a manhã distraído.
Os professores explicavam a matéria, eu copiava o que estava no quadro, mas a cabeça fugia constantemente para outro lugar.
Voltava sempre ao mesmo instante.
Àquela fracção de segundo em que ela afastara a minha mão.
Quanto mais pensava, mais convencido ficava de que tinha ultrapassado um limite que nunca deveria ter ultrapassado.
Talvez tivesse confundido amizade com outra coisa.
Talvez ela apenas me visse como um colega.
Talvez eu tivesse imaginado demasiadas coisas.
À hora do almoço encontrei o Manel.
Conversou comigo como sempre.
Fez uma ou outra brincadeira.
Ri-me, mas nem eu próprio acreditei naquele riso.
Ele conhecia-me demasiado bem.
— Estás calado hoje.
— Não é nada.
— Tens a certeza?
— Tenho.
Não insistiu.
Ainda bem.
Nem eu saberia explicar o que se passava.
Depois do almoço voltei a encontrar a Dila.
Falámos durante o caminho para a paragem.
Foi uma conversa simples, igual a tantas outras.
Mesmo assim, havia qualquer coisa diferente.
Não nela.
Em mim.
Cada vez que os nossos passos se aproximavam, dava por mim a desviar-me ligeiramente.
Não queria voltar a passar pela vergonha do dia anterior.
Se ela reparou, não o demonstrou.
Despediu-se com um sorriso.
— Até segunda-feira.
— Até segunda.
Vi-a afastar-se pela rua.
Durante alguns instantes fiquei parado a olhar, até desaparecer na esquina.
Só então continuei caminho.
Pela primeira vez desde que nos conhecíamos, comecei a desejar que o fim-de-semana fosse suficientemente longo para me ajudar a esquecer o que tinha acontecido.
No fundo, ainda acreditava que o tempo resolveria tudo.
Não fazia ideia de que algumas feridas começam precisamente quando julgamos que vão desaparecer.
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