Um caminho diferente
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Sábado, 14 de Maio de 1977
Hoje acordei um pouco mais tarde. Pela primeira vez desde há muito tempo, não tinha de pensar nos horários dos tróleis nem nas aulas.
Apesar disso, mal abri os olhos, lembrei-me logo do que acontecera na quinta-feira.
Tentei afastar o pensamento.
Disse para comigo que não valia a pena continuar a remoer uma coisa que já não podia mudar. O fim-de-semana talvez me ajudasse a esquecer.
Depois do pequeno-almoço fui tratando de algumas coisas em casa. De vez em quando pegava num livro, folheava uma revista ou mudava de tarefa, mas nada conseguia prender-me a atenção durante muito tempo.
A certa altura olhei para o relógio.
Faltava pouco para a hora a que costumávamos encontrar-nos na paragem.
Sem querer, imaginei a Dila à espera do trólei.
Talvez olhasse para um lado e para o outro, à minha procura.
Ou talvez nem desse pela minha falta.
Sacudi esse pensamento.
Quando chegou a hora habitual, permaneci em casa.
Não foi uma decisão pensada. Limitei-me a não sair. Quando dei por isso, o trólei já devia ter passado.
Pela primeira vez em mais de dois anos, deixei-a seguir sozinha.
Não faltei à primeira aula por preguiça.
Nem por falta de vontade de estudar.
Simplesmente não tive coragem de a encontrar.
Quando cheguei ao liceu, a manhã decorria normalmente.
Entrei na segunda aula como se nada tivesse acontecido.
Os colegas conversavam.
Os professores davam a matéria.
Tudo permanecia exactamente igual.
Só eu parecia deslocado dentro daquele dia.
Evitei passar perto do liceu dela.
Evitei olhar para os sítios onde costumávamos encontrar-nos.
Quando terminou a última aula, saí imediatamente.
Não esperei por ninguém.
Nem esperei que alguém me esperasse.
Durante o regresso pensei várias vezes em voltar atrás.
Bastava dirigir-me à paragem habitual.
Talvez ela ainda lá estivesse.
Talvez ainda fosse a tempo de a ver.
Continuei a andar.
À tarde encontrei-me com o Manel. Saímos durante algum tempo e falámos de vários assuntos, como era costume. Ele mantinha a mesma boa disposição de sempre e eu esforçava-me por acompanhá-lo.
Por vezes até conseguia esquecer-me.
Mas bastava haver um momento de silêncio para aquele episódio regressar à memória.
Nunca lhe contei o que se passava.
Nem pensei fazê-lo.
Havia coisas que me pareciam difíceis de explicar, até a mim próprio.
Ao regressar a casa dei por mim a pensar que, dali a dois dias, voltaria a encontrar a Dila.
Não sabia como iria agir.
Uma parte de mim desejava que tudo voltasse a ser como antes.
Outra parte receava que bastasse um gesto, uma palavra ou um olhar para me lembrar outra vez daquilo que eu julgava ter visto.
Adormeci convencido de que, na segunda-feira, tudo voltaria ao normal.
Era nisso que eu queria acreditar.
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