O primeiro vazio
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Domingo, 15 de Maio de 1977
Acordei mais tarde do que era costume.
Durante alguns instantes permaneci deitado, a olhar para o tecto, sem vontade de começar o dia. O silêncio da casa ainda anunciava uma manhã preguiçosa de domingo.
Levantei-me finalmente, tomei o pequeno-almoço e tomei banho.
Fiz tudo de forma mecânica, como quem cumpre um hábito antigo.
Peguei depois num livro.
Li algumas páginas.
Voltei atrás.
Percebi que não fazia ideia do que acabara de ler.
Fechei-o.
Havia qualquer coisa dentro de mim que não conseguia sossegar.
Não era tristeza.
Também não era raiva.
Era uma estranha sensação de ausência.
Como se uma parte dos meus dias tivesse deixado de estar onde sempre estivera.
Depois do almoço encontrei-me com os colegas do DIFI.
Seguimos juntos para a sede.
Falámos dos preparativos da exposição e das actividades que ainda faltava organizar. Pela primeira vez em muitas semanas, o grupo parecia funcionar sem discussões nem desconfianças. Cada um sabia o que tinha de fazer e isso tornava tudo mais simples.
Ao fim de algum tempo, um dos colegas lançou uma ideia.
— E se fôssemos todos para minha casa?
Ninguém se opôs.
Mudámo-nos para lá e passámos o resto da tarde entre conversas, risos e projectos. Falámos de muitos assuntos, alguns sérios, outros sem importância nenhuma, como acontece quando um grupo de amigos simplesmente gosta de estar junto.
A certa altura apercebi-me de que tinham passado largos minutos sem pensar na Dila.
A surpresa não foi tê-la esquecido.
Foi perceber que isso ainda era possível.
Pouco depois, sem que nada o anunciasse, a recordação voltou.
Bastou um breve silêncio na conversa para o pensamento regressar inevitavelmente àquela manhã de quinta-feira.
Quando me apercebia, obrigava-me a pensar noutra coisa.
Não queria continuar preso àquele instante.
Ao fim da tarde regressei a casa.
Durante o caminho ocorreu-me, mais do que uma vez, que no dia seguinte voltaria ao liceu.
Não sabia se os nossos caminhos voltariam a cruzar-se.
Nem sequer sabia se devia agir como sempre ou manter a distância que começara a criar.
Pela primeira vez desde que a conhecia, receava encontrá-la.
Jantei com a família e vi um pouco de televisão.
As imagens sucediam-se no écran, mas mal lhes prestava atenção.
Quando me deitei, ocorreu-me que passara dois dias sem a ver.
Na semana anterior isso parecer-me-ia impossível.
Agora tinha acontecido.
Não significava que a tivesse esquecido.
Significava apenas que os dias já não eram iguais.
Adormeci sem encontrar resposta para nada.
No dia seguinte voltaria ao liceu.
E era isso que mais me inquietava.
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