A distância que escolhi

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Segunda-feira, 16 de Maio de 1977

Acordei cedo.

Ao contrário das manhãs anteriores, não fiquei muito tempo deitado.

Sabia que o fim-de-semana terminara e que tudo regressaria ao ritmo habitual.

Vesti-me, tomei o pequeno-almoço e saí de casa.

Durante alguns instantes caminhei sem pensar.

Quando me apercebi, seguia novamente para a paragem onde passara a apanhar o trólei nos últimos dias.

Já não era uma decisão tomada no momento.

Começava a transformar-se numa rotina.

Enquanto esperava, dei por mim a pensar que, durante muito tempo, aquela hora da manhã tivera sempre um significado especial.

Agora limitava-me a esperar pelo trólei.

Nada mais.

A viagem decorreu normalmente.

Olhava distraidamente pela janela enquanto as ruas iam ficando para trás.

Por mais que tentasse concentrar-me no que via, havia sempre um pensamento que regressava sem ser chamado.

Perguntava-me como estariam as coisas do outro lado daquele silêncio que eu próprio criara.

Cheguei ao liceu e as aulas começaram sem nada de diferente.

Os professores davam a matéria.

Os colegas conversavam nos intervalos.

A vida continuava exactamente como antes.

Era eu quem já não me sentia igual.

Procurei ocupar a cabeça com os apontamentos e com os trabalhos que tinha para fazer.

Sempre que conseguia concentrar-me, tudo parecia voltar ao seu lugar.

Mas bastava um instante de distracção para a memória regressar.

Não insistia em compreendê-la.

Limitava-me a conviver com ela.

Quando as aulas terminaram, regressei a casa pelo mesmo caminho.

Ao fim da tarde ocupei-me de algumas tarefas do DIFI e procurei adiantar o que pudesse.

Era mais fácil manter a cabeça ocupada do que deixá-la entregue aos pensamentos.

Quando chegou a noite, percebi que passara mais um dia.

Nada acontecera.

E, no entanto, continuava a sentir que alguma coisa tinha mudado para sempre.

Fechei os olhos.

No dia seguinte recomeçaria tudo outra vez.


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