Um breve esquecimento

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Terça-feira, 17 de Maio de 1977

Hoje acordei à mesma hora dos últimos dias.

Sem pensar muito, preparei-me para sair e voltei a seguir pelo caminho que escolhera na véspera.

Já não passei pela paragem do costume.

Limitei-me a continuar, como se aquele novo percurso existisse desde sempre.

Enquanto esperava pelo trólei, ocorreu-me perguntar a mim próprio se a Dila teria reparado na minha ausência.

Não demorei muito a afastar esse pensamento.

O veículo chegou e a viagem decorreu como tantas outras.

Quando entrei no liceu, procurei concentrar-me nas aulas.

Ao princípio foi difícil.

Mas, à medida que a manhã avançava, comecei a ocupar a cabeça com outras coisas.

As explicações dos professores.

As conversas dos colegas.

Os trabalhos que havia para fazer.

Sem dar por isso, passei largos períodos sem pensar no que acontecera na semana anterior.

Só mais tarde me apercebi disso.

Não porque a tivesse esquecido.

Mas porque, durante alguns momentos, a vida conseguira distrair-me.

Foi uma sensação estranha.

Quase me senti culpado por conseguir pensar noutras coisas.

Ao intervalo encontrei alguns colegas e conversámos durante algum tempo.

Falámos das aulas, de assuntos do liceu e de pequenas coisas que normalmente nem mereciam grande importância.

Ri-me até de uma ou outra brincadeira.

Era um riso verdadeiro.

Quando me apercebi, fiquei surpreendido comigo próprio.

Talvez fosse esse o caminho.

Não esquecer.

Mas deixar que os dias voltassem, pouco a pouco, ao lugar onde sempre tinham estado.

No regresso a casa mantive o mesmo cuidado dos dias anteriores.

Evitei passar pelos sítios onde era mais provável encontrar a Dila.

Já não o fazia por impulso.

Fazia-o quase por hábito.

Ao fim da tarde voltei a dedicar algum tempo ao DIFI e aos apontamentos que tinha em casa.

Pela primeira vez desde quinta-feira passada, consegui trabalhar durante bastante tempo sem que a minha cabeça regressasse constantemente ao mesmo instante.

Só quando a noite chegou e tudo voltou a ficar em silêncio é que dei novamente por mim a pensar nela.

Não sabia onde estaria.

Nem como teria passado aqueles dias.

Também não sabia se dera pela minha ausência.

Talvez sim.

Talvez não.

Apaguei a luz.

Fechei os olhos.

No dia seguinte tudo recomeçaria.

E eu continuava sem saber qual era a melhor maneira de agir.


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