O silêncio entre nós

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Quarta-feira, 18 de Maio de 1977

Os últimos dias transformaram a rotina numa espécie de refúgio. Já não preciso de pensar no caminho que faço nem na paragem onde espero o trólei. Limito-me a cumprir os mesmos gestos de todas as manhãs.

Cheguei ao liceu e as aulas decorreram normalmente.

Escrevi apontamentos, respondi às perguntas dos professores e procurei concentrar-me no que era dito dentro da sala. Nem sempre o conseguia, mas já não me sentia tão perdido como nos primeiros dias.

Por vezes dava comigo completamente absorvido pela matéria.

Noutras alturas bastava um momento de silêncio para os pensamentos regressarem.

Não ao episódio da chuva.

Mas à falta que aqueles pequenos momentos começavam a fazer.

Nunca lhes dera verdadeira importância enquanto existiam.

Agora descobria que eram precisamente essas pequenas rotinas que davam sentido aos meus dias.

Quando terminaram as aulas, saí do liceu e comecei a caminhar em direcção à paragem.

Foi então que a vi.

Vinha em sentido contrário.

Durante alguns segundos caminhámos um ao encontro do outro.

Olhámo-nos.

Nenhum de nós falou.

Continuei a andar.

Ela fez o mesmo.

Tudo aconteceu em poucos instantes.

Quando olhei para trás, já seguíamos em direcções opostas.

Só então percebi que, durante aqueles breves segundos, bastava uma palavra.

Um simples "olá".

Nenhum de nós a disse.

Continuei o caminho para casa.

Durante todo o regresso pensei naquele encontro silencioso.

Não me pareceu uma vitória.

Também não me pareceu uma derrota.

Pareceu-me apenas a confirmação de que alguma coisa se tinha partido entre nós.

E, pela primeira vez, comecei a perguntar-me se aquele silêncio já não dependia apenas de mim.

Ao deitar-me, a imagem daquele breve cruzamento voltou uma última vez.

Fechei os olhos.

Às vezes, um silêncio consegue dizer muito mais do que uma conversa inteira.


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